“Se a memória existe...”: Os bombardeamentos de Belgrado há dez anos
25-Mar-2009

Mário ToméFaz agora dez anos que teve início a agressão militar dos EUA à Europa que iria durar até ao dia 6 de Junho de 1999.

E, no entanto, os europeus parece que nem deram por isso. O que é, aliás, natural dado que eles próprios, os europeus, sem darem por isso, participaram nos miseráveis bombardeamentos à Jugoslávia, até ao seu coração, Belgrado.

Destruíram pontes, estradas, estações de rádio e TV, edifícios e estruturas da Administração Jugoslava. Além das vítimas humanas. Sem quase darem por isso os europeus integraram o esforço de guerra dos EUA no ataque ao centro da Europa.

Os bombardeiros B-52 da NATO mostravam a sua precisão, lançando as bombas lá de muito alto enquanto as tropas apeadas não arriscavam qualquer confronto com o altamente organizado e eficaz exército jugoslavo.

No terreno funcionava o UÇK, o "exército de libertação do Kosovo", criação atempada dos EUA aproveitando traficantes de droga e terroristas (classificação dos próprios serviços secretos norte-americanos), que desde os anos oitenta iam fazendo a necessária limpeza étnica das populações da minoria sérvia até que a conseguiram reduzir de 30% para 5%, para dar consistência à estratégia dos EUA de forçarem, com o apoio dos países europeus, a abdução do Kosovo.

Mal a NATO entrou no Kosovo, as tropas norte-americanas começaram a construir a maior base militar fora dos EUA perto de Urosevac. O petróleo do Cáspio ficava assim mais bem protegido, assegurado o direito de passagem nos Balcãs.

A Alemanha lambia os beiços e tratou de pressionar os EUA para o ataque à Jugoslávia, ajudando na preparação das tropas terroristas do UÇK. Nessa altura, a Alemanha devia pertencer à "nova Europa", segundo os critérios que levaram Bush a considerá-la da "velha Europa" quando, quatro anos depois, com a França, hesitou no apoio à invasão do Iraque.

O mais abjecto de toda esta operação de desintegração da Jugoslávia e de redução da Sérvia, que teve início com a intervenção irregular da NATO na guerra da Bósnia, foi que os EUA usaram, para com os próprios aliados, de uma política dúplice falseando os dados da situação para forçarem o bombardeamento de Belgrado.

O alardeado insucesso das negociações de Rambouillet, em Fevereiro e Março de 1999, por alegada intransigência de Milosevic fez parte de uma sinistra farsa conduzida pela NATO e depois pelos EUA. Os EUA manobraram para forçar o fracasso das negociações, aliás impostas sob ultimato, quando o acordo era claramente possível: a Sérvia tinha aceite um estatuto de autonomia para o Kosovo sob a supervisão da ONU e da OSCE, aceitando mesmo discutir uma presença militar internacional. Tudo isso foi sonegado à opinião pública, aliás muito mal servida por uma comunicação social dócil até mais não poder, que construía a informação na base dos briefings ditados por um general inglês encarregado de contar as intransigências de Milosevic, aliás de forma muito pouco credível.

Tudo foi sonegado à opinião pública para justificar o bombardeamento da Jugoslávia. Assim como foi sonegado um relatório da OSCE, reflectindo o trabalho dos seus 1300 observadores no terreno, reconhecendo que, antes do ataque da NATO não se podia falar com um mínimo de seriedade de violência dos sérvios contra os albaneses do Kosovo, retirando qualquer credibilidade às alegações que serviram de sustentação para o envolvimento da NATO no Kosovo, à revelia das normas internacionais e do próprio Tratado.

Da mesma forma foi mantida secreta a razão por que os sérvios, em desespero de causa, recusaram a mediação: uma adenda dos EUA exigia o acordo de Milosevic para a total ocupação da Sérvia pelas tropas da NATO. Washington chantageou os sérvios e ludibriou os aliados. Mas o mais abjecto mesmo, é que os aliados aceitaram ser ludibriados, tratados como mero álibi e participaram nos mais brutais bombardeamentos desde a segunda Guerra Mundial na Europa, algo que já não era considerado possível.

Claro que a poderosa máquina militar de Portugal não poderia ficar de fora. Generais impacientes para mandar os pilotos bombardear nos Balcãs, já que uma oportunidade destas não se pode desperdiçar, foram incapazes de dizer ao primeiro ministro que não senhor não iam entrar numa operação totalmente estranha à carta fundadora da NATO, que nenhum dos membros tinha sido atacado ou estava em risco de o ser e que a intervenção ia ter lugar out of area. Portanto era ilegal.

Mais grave ainda, tal missão não foi objecto de qualquer autorização parlamentar, apesar do seu carácter sem precedentes e integrada na primeira acção de guerra da NATO desde a sua fundação em 4 de Abril de 1949.

Quer da parte dos militares, quer dos diplomatas, quer do Governo, a intervenção irregular da NATO foi justificada como forma de afirmação do novo papel da NATO no contexto pós-guerra fria, e serviu para impor o facto consumado que deu base material ao acordo de Washington meses depois.

Parece que nada aconteceu, mas milhões de pessoas sofreram profundamente as consequências dos crimes e violações cometidos por quem se arroga o direito de desenhar e redesenhar o mundo à revelia dos direitos de pessoas, povos e nações.

O Estado português não pode deixar de ser confrontado com a sua responsabilidade na participação sempre servil mas não menos efectiva nesses actos criminosos face ao direito internacional.

Para os Balcãs continuam a ir contingentes de militares portugueses apesar de, como referiu muito recentemente o major general Raul Cunha recém regressado da Bósnia, estarem sistematicamente a "violar todas as regras do direito internacional".

A história vai sendo escrita pelos vencedores. O direito internacional só serve para gerir os diferendos entre forças que se equivalem. Fora disso parece que não serve para nada, o que não abona nada acerca da nossa civilização.

Dentro de dias passa mais um ano sobre a agressão criminosa contra o Iraque. As mentiras e as violações do direito internacional constituíram também a essência da manobra de neutralização da opinião pública que , apesar de tudo, por poder mobilizar torrentes de consciências e vontades, sendo sempre desprezada, é sempre temida.

Também nessa latrina - Dick Cheney fartou-se de as vender no Iraque - Portugal esteve metido estendendo uma passadeira vermelha nas Lajes para o anúncio da vitória da barbárie. No Afeganistão estão tropas portuguesas.

A memória dos factos atrás descritos e que hoje ninguém poderá negar sustentadamente, deve servir para a opinião pública no exercício digno e responsável da cidadania, exigir e impor alterações profundas na política que nos governa e na posição de Portugal nas instâncias internacionais. Nomeadamente ajudando a criar uma corrente de opinião pela saída de Portugal da NATO e pela extinção dessa aliança militar que, da Bósnia ao Afeganistão, lança a morte e a destruição para assegurar o domínio do império.

Mário Tomé

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