Sair do Afeganistão
17-Abr-2009

Mário ToméO Afeganistão sempre foi o cemitério de todos os invasores, desde Alexandre Magno aos Soviéticos, passando por Gengis Khan e a Grã-Bretanha.

Bush usou o 11/9/2001 para, com a "guerra contra o terrorismo", tentar dar seguimento à política de Clinton: controlar no Afeganistão a passagem do petróleo e do gás do Cáspio para Qeta e Carachi.

A burguesia paquistanesa beneficia com isso mas é confrontada com os bombardeamentos da NATO dentro do Paquistão e tentada a compreender a simpatia do exército e dos serviços secretos pelos talibans, afinal pashtuns dum lado e outro da fronteira. Daí muita da instabilidade interna do Paquistão.

Obama sabe que não vencerá no Afeganistão e que só conseguirá alguma estabilidade para poder sair, de mãos sujas, cara à banda e arma em bandoleira, se os talibãs "moderados" aceitarem participar num governo de coligação, o que só acontecerá se as tropas estrangeiras saírem do Afeganistão. Trata-se portanto da quadratura do círculo.

Para o Afeganistão só há uma solução, aliás óbvia, e que ajudará à estabilidade na região, nomeadamente no Paquistão que tanto preocupa os EUA: fora com as tropas invasoras.

No Afeganistão ninguém, muito menos os pashtun na fronteira com o Paquistão, ajudará à captura de Bin Laden pelas tropas que bombardeiam aldeias, matam as populações e massacram casamentos. Depois todos sabem que a Al Qaeda é uma entidade difusa, sustentada numa ideologia fundamentalista e assassina, cujos membros só precisam de aderir e de ter acesso à internet e a explosivos que não vão do Afeganistão mas se compram numa loja perto de si; e que o terrorismo não se combate com cerca de 80 mil tropas a fazerem asneiras e a perderem batalhas nas montanhas e desfiladeiros do Afeganistão.

Por estas razões, a cretinice arrogante da estratégia imperial, a inutilidade da mesma,a derrota anunciada e, the last but not the least , a ilegitimidade criminosa da ocupação, o governo de Portugal, se tivesse respeito pelos portugueses, nunca deveria ter enviado tropas para o Afeganistão.

Assim, acho que a Assembleia da República deve avocar a si as matérias relativas ao envio de tropas para o estrangeiro, opor-se ao compromisso ilegítimo do governo, em obediência às ordens de Obama e da NATO, de enviar tropas para o Afeganistão e mandar retirar até ao último soldado que lá esteja.

É também uma boa altura - a crise ajuda a pensar- para questionar a utilidade dos 2 mil milhões de euros orçamentados para as FA's. Que interesses é que elas defendem se não estão, como se vê, a defender os interesses dos portugueses. É tempo de não confundir Portugal com uma espécie de protectorado dos EUA e uma brigada ao serviço da NATO.

Mário Tomé

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