60 anos da rádio Pacífica: um refúgio da dissidência
22-Abr-2009

Amy GoodmanA rádio Pacífica, mais antiga rede de média independentes dos Estados Unidos, completa 60 anos esta semana, no momento em que os meios dominantes estão mergulhados numa profunda crise. Centenas, até milhares de jornalistas estão a ser despedidos. Jornais respeitáveis, alguns com mais de cem anos de história, estão a fechar abruptamente. A tecnologia digital está a mudar as regras, destruindo indústrias inteiras e colocando de pernas para o ar as tarefas tradicionais de jornalista, realizador cinematográfico, editor e consumidor. Os meios comerciais estão a perder público e patrocinadores. As pessoas estão a explorar novos modelos de média, entre eles o jornalismo sem fins lucrativos.

A rádio Pacífica foi fundada por Lew Hill, um pacifista que se recusou a lutar na Segunda Guerra Mundial. Quando saiu do centro de detenção depois da guerra, disse que os EUA precisavam de um canal que não fosse administrado pelas empresas que enriqueciam com a guerra. Precisavam, disse, de um meio administrado por jornalistas e artistas. Nas palavras do falecido George Gerbener, decano da Faculdade Annenberg de Comunicação da Universidade da Pensilvânia: um meio que não é administrado por "empresas que não têm nada a dizer e querem vender tudo, que são as que estão a criar os nossos filhos hoje em dia". A KPFA, a primeira rádio da rede Pacífica, foi ao ar pela primeira vez em Berkeley, Califórnia, no dia 5 de Abril de 1949. A rádio FM estava nas fraldas naquele momento, razão pela qual a KPFA teve de criar e entregar rádios FM para que as pessoas escutassem a emissora. A rádio Pacífica tentou algo que ninguém acreditou que funcionaria: construir uma rede com base no apoio financeiro voluntário de ouvintes individuais, um modelo que logo foi adoptado pela Rádio Pública Nacional (NPR, na sigla em inglês) e pela televisão pública.

A rede Pacífica cresceu até ter cinco emissoras: KPFA em Berkeley, KPFK em Los Angeles, WBAI em Nova York, WPFW em Washington e KPFT em Houston. Em 1970, nos seus primeiros meses de funcionamento, a KPFT, converteu-se na única emissora de rádio nos Estados Unidos cujo transmissor sofreu um atentado à bomba. O explosivo foi colocado pelo Ku Klux Klan. O "Grande Mago" do KKK, seu máximo líder, descreveu o ataque como o seu acto de maior orgulho. Creio que foi porque entendeu o quão perigosa era a rádio Pacífica, já que permitia que as pessoas falassem por si mesmas. Quando se ouve alguém falar da própria experiência - uma criança palestiniana, uma mãe israelita, um avô do Afeganistão - isso rompe os estereótipos que alimentam os grupos de ódio que dividem a sociedade. Os média podem construir pontes entre comunidades, ao invés de pregar o seu bombardeio.

A Pacífica é um refúgio para quem pensa diferente. Na década de 50, quando o legendário cantor e líder afro-americano Paul Robeson foi incluído na "lista branca" durante a caça às bruxas do senador Joseph McCarthy, e foi proibido de ter acesso a praticamente todos os espaços públicos nos EUA, com excepção de umas poucas igrejas negras, sabia que podia ir à KPFA e ser escutado. O grande escritor James Baldwin debateu com Malcolm X acerca da eficácia das tácticas não-violentas de desobediência civil no Sul. O debate foi transmitido pela WBAI. Fiz a minha primeira incursão no jornalismo de rádio na sala de imprensa da WBAI. Hoje, a tradição da Pacífica é mais do que nunca necessária.

Nesta era digital de alta tecnologia, com a televisão de alta definição e a rádio digital, todo o que obtemos é mais estática e ruído: esse véu de distorções, mentiras, falsidades e meias-verdades que obscurecem a realidade. O que os meios de comunicação deveriam dar-nos é estática noutro sentido: uma estática crítica, questionadora, que produza uma interferência não desejada sobre o discurso dominante. Precisamos meios que cubram o que acontece no nível do poder e não que encubram o poder. Precisamos de meios que sejam o quarto poder e não parte do poder do Estado. Precisamos de meios que cubram os movimentos que criam a estática e fazem a história.

Com mais canais do que nunca, a falta de diversidade de opinião é estarrecedora. A liberdade de imprensa está consagrada na Constituição, no entanto, nossos meios actuam em grande medida como um megafone daqueles que estão no poder. No momento em que enfrentamos crises sem precedentes - desde o aquecimento global até às guerras mundiais e a crise económica mundial - também há uma oportunidade de mudança sem precedentes.

Onde se reunirão os pensadores inovadores, os activistas de base, os líderes da luta pelos direitos humanos e os cidadãos comuns para discutir soluções aos problemas mais urgentes da actualidade?

Por exemplo, apesar de haver muitas pessoas nos EUA - no movimento pacifista e também nas forças armadas - que se opõem ao envio de mais soldados ao Afeganistão, como fizeram no Iraque, não vemos nem escutamos praticamente nenhuma destas vozes dissidentes nos meios norte-americanos. Apesar de algumas pesquisas indicarem que a maioria dos norte-americanos apoia o sistema de saúde de pagador único, estas vozes são basicamente ignoradas ou menosprezadas nos jornais e nos programas das grandes cadeias de notícias.

Nas minhas viagens pelo país, perguntaram-me outro dia o que pensava sobre os meios hegemónicos. Disse que pensava que eram uma boa ideia. No 60° aniversário da Rede Rádio Pacífica, deveríamos celebrar a tradição da dissidência e do poder das vozes diferentes na hora de resolver conflitos de forma pacífica.

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna

Tradução: Katarina Peixoto, da Carta Maior. Adaptação para Portugal de Luis Leiria

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

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