O Sr. Conselheiro
11-Mai-2009

Alice BritoHá cerca de 15 anos, em Dezembro de 1994, os trabalhadores da Manuel Pereira Roldão, fábrica da Marinha Grande, foram alvo de uma carga policial, digna dos tempos áureos do Estado Novo.

Tinham salários em atraso, o que quer dizer que trabalhavam oito horas por dia, e no fim do mês, de vários meses, não lhes era paga a contraprestação remuneratória a que tinham direito.

Havia no ar um aroma de insolvência de contornos dolosos, que fazia pressentir a falência e o inevitável desemprego.

A polícia surgiu em alcateia, uma polícia ágil no bastão, e perseguiu e zurziu sem dó nem piedade os trabalhadores manifestantes, credores do seu salário de muitas horas sofridas a produzir o vidro, a alma industrial da Marinha Grande.

Alguns manifestantes fugiram para dentro do Quartel dos Bombeiros e a polícia entrou dentro do Quartel dos Bombeiros.

Outros fugiam para dentro da Igreja, talvez na suposição que por pudor e respeito a Polícia se absteria de aí entrar.

Mas a polícia, zelosa e obediente, que cumpria as ordens de quem dava ordens, entrou no recinto religioso e espancou com eficaz proficiência quem encontrou à frente, incluindo um padre.

As ruas aflitas da Marinha Grande testemunharam uma das cargas mais brutais de que há memória naquela localidade, palco de muita bastonada e massacre, com o dezoito de Janeiro gravado em cada pedra da calçada.

A polícia interveio precisamente ali no equador enraivecido, triste e empobrecido da produção vidreira.

Era Ministro da Administração Interna, Manuel Dias Loureiro, um herói Português e Cavaquista convicto.

As cargas policiais da Marinha Grande, a carga sobre os estudantes e na Ponte 25 de Abril, fazem parte do ocaso Cavaquista, um ocaso quase patético, como o são todos os fins urgentes.

O ministro arrogante e assertivo, foi de imediato catapultado para um outro espaço, um território ocupado com elegância pelos corsários da alta finança.

Começou a dormir à pressa, na ânsia dos negócios, sem tempo para politicar, ele que tudo devia à política, movimentando-se certeiro nas áreas febris dos off shores, espaços virtuais muralhados por portas robustas e silenciosas, que emprestam sigilo a todas as cumplicidades.

Com a frieza da ponderação e o gelo do cálculo, ficou mais rico, pisando, com o à vontade possível de todos os novatos, o chão aristocrata dos eleitos.

Assinou contratos, comprou e vendeu empresas de entranhas falidas para escoar capital, e com um insaciável apetite por tudo quanto era produto financeiro, vestiu-se de sombras, aparecendo e desaparecendo em momentos chave, com uma atlética vontade de sacar.

Hoje responde, com uma amnésia proporcional ao dolo utilizado na devastação do falido BPN, perante uma comissão Parlamentar de Inquérito.

A língua convicta, tão convicta que enternece, sibila desmemórias.

Mas aqueles que na Marinha Grande queriam defender o seu posto de trabalho e tiveram a audácia de exigir o pagamento do seu salário, não esquecem, porque sentiram na pele, a verticalidade do Sr. Conselheiro Dias Loureiro.

Alice Brito

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