O pesadelo da eterna juventude
04-Dez-2006
luis_branco.jpgHá muito tempo que a juventude em Portugal sente na pele o fracasso das políticas de educação, emprego e apoio social dos últimos 20 anos. E o anúncio feito ontem pelo governo das conclusões do estudo das estatísticas oficiais do período entre 1990 e 2005, só vem confirmar o que já avançava o relatório preliminar: a autonomia dos jovens em relação à família é cada vez mais tardia e a precariedade no emprego é o cenário que espera a maioria dos que conseguem encontrar algum.

O país e o governo conhecem o problema, mas este insiste em tomar medidas para o agravar, atropelando as suas próprias promessas antes das eleições: foi assim com as alterações ao regime do subsídio de desemprego, atribuindo menos meses de subsídio aos mais jovens, foi assim com a manutenção do código Bagão que permite estender os contratos a prazo até 6 anos, e foi também assim quando o secretário de estado do ordenamento do território profetizou o fim do Incentivo ao Arrendamento Jovem, com o objectivo de o restringir ainda mais em 2007. Isto tem consequências hoje. Mas quantas e quantos destes jovens se deram conta que as alterações ao sistema público de segurança social foram destinadas a fazer baixar as suas reformas? Saberão pelo menos uma coisa: é que ao contrário da geração anterior, hoje as expectativas de conseguir quer o emprego estável quer a garantia de remuneração na reforma são muito baixas.

Enquanto o governo desmantela a protecção social, a taxa do desemprego jovem é o dobro da média nacional, a dos desempregados com licenciatura dispara todos os anos, e as empresas que adoptam o conceito da flexploração não olham a meios para aproveitar a vulnerabilidade desta mão-de-obra. O quotidiano do trabalho jovem são os falsos estágios que soam a escravatura, a fuga aos descontos para a segurança social, os horários sem regra e os invariáveis salários baixos que já seriam baixos mesmo antes da empresa de trabalho temporário tirar a parcela que lhe cabe neste assalto aos e às trabalhadoras jovens.

Indiferente às dificuldades que as políticas do governo Sócrates vieram acrescentar à vida dos jovens, o ministro Silva Pereira teve o mérito de conseguir que no fim do encontro com associações juvenis o seu anúncio fosse recebido com grande pompa pela comunicação social: depois do estudo aprofundado, vem aí... uma comissão interministerial. Cá está a mensagem do governo para a juventude: se querem ver soluções, não saiam já da casa dos pais.