Novas questões, velhas respostas
11-Ago-2009
Será que ainda não estamos suficientemente cansados de há 30 anos assistir a este ping-pongue? Será que ainda é possível continuar a ouvir, ao fim de mais de 30 anos (e após cada ciclo eleitoral), este tipo de discussão (entre os partidos da alternância), sem sentir uma náusea invadir-nos as entranhas?...
Artigo do nosso leitor John  

Ultimamente, após o resultado das europeias, têm vindo a público algumas posições ou expressões interessantes. Refiro-me em 1º lugar à expressão "esquerda democrática" utilizada já várias vezes por dirigentes do PS. Recordo-me, por exemplo, de um debate após as eleições europeias (e acerca das mesmas) na televisão, onde estavam presentes Francisco Assis e Rui Tavares, entre outros, de aquele afirmar que os votos no PS tinham sido votos na "esquerda democrática" - o que por exclusão de partes, implica que as restantes forças políticas que se afirmam de esquerda, não pertemçam ao restrito clube a que pertence o PS: o da esquerda democrática.

Mas o recenseamento poderia continuar: 2 - Manuela Ferreira Leite (MFL) (entre outros políticos de direita), dizia a propósito de sondagens publicadas, antes das europeias, que era preocupante a subida da esquerda. 3 - Na noite das eleições europeias, e, após ser conhecido o resultado destas, Vital Moreira, no seu comentário ao país falava do "perigo da fragmentação partidária fora do arco dos partidos da governabilidade" .... 4 - Recentemente, João Jardim, vem propor a alteração da constituição, para, segundo ele, proteger Portugal do totalitarismo.

Enfim, ... as críticas de João Jardim aos totalitarismos, só podem provocar uma reacção: o mais desbragado riso...

5 - Também recentemente, um novo fantasma foi retirado do armário escuro e lançado aos 4 ventos; o fantasma da "governabilidade" - que augura arrastar consigo, a ameaça do desabar dos céus e do fim dos dias.

Governabilidade:

- Afinal de que falam, quando falam de governabilidade?

- Dos negócios ruinosos para o estado e favoráveis a 1 punhado?

- Do desbaratar de bens e de resursos públicos a favor de alguns?

- Da promiscuidade entre homens de negócios (eles mesmos) e os políticos-que-após-passarem-pelo-poder-se-transformam-em-homens-de-negócios? - Num ambiente; turvo, lodoso e pantanoso de atribuição/retribuição. Onde, os interesses destes, se tende a confundir com os daqueles e vice-versa?

Eu, aqui, permitir-me-ia divagar um pouco; dizendo que os nossos "políticos da área da governabilidade", têm que enfrentar espinhosos desafios - os de ser sem o parecer -, ou seja; os de governar a favor de uma minoria (uma vez que isso possa significar, governar também a seu favor, na medida em que mais tarde haja retribuição...), sem o parecer (uma vez que precisam de percentagens alargadas de votos, para a manutenção ou a conquista do poder...).

Estes desafios, parecem-me estar na origem de muitas das dificuldades do poder - o que exige, malabarismos, contorcionismos e truques vários.

Parece-me, que todo o jogo está viciado à partida; que a Democracia é transformada numa coutada de interesses privados - em vez de ser um espaço, que contribua para o bem estar e a melhoria da qualidade de vida da maioria...

(Um arguto observador e pensador da realidade política norte-americana, classifica os partidos do poder de partidos dos negócios. Parece que a expressão se adapta cada vez mais à realidade europeia em geral e à portuguesa em particular).

 

Ping-Pongue

(ou vira o disco e toca o mesmo)

Fazendo apelo a um pouco de paciência, colocava 2 exemplos:

1 - Manuela Ferreira Leite (MFL) (partido A), quando, recentemente confrontada com o negócio da venda da rede fixa à PT, por si efectuado, enquanto ministra das Finanças do governo PSD/CDS, em 2002 (um dos inúmeros negócios, multimilionários, ruinosos para o Estado - convém relembrar, que a rede fixa foi vendida à PT, por menos de 1/6 do seu valor na altura - representando uma perda de cerca de 2 mil milhões de euros para o estado (leia-se todos nós), a favor da PT (leia-se accionistas da PT). Negócio feito com Murteira Nabo - então administrador da PT. Murteira Nabo que ... ora vá lá, um pouco de exercício de memória... isso mesmo tinha sido ministro do governo do PS (partido B)), esclarece-nos então MFL (partido A), que apenas se limitou a concretizar o negócio já decidido, pelo partido da alternância - PS (B), acrescentando que ela (A), ainda introduziu umas alterações, e, que, se o negócio tivesse sido feito de acordo com o negociado por B, ainda teria sido mais ruinoso. Ao que B responde; que apesar deles (B) o terem decidido, que A (neste caso aliado ao partido C), poderia ter renundiado ao negócio...

2 - MFL (partido A), critica Sócrates (B), de querer fazer a construção duma 3ª auto-estrada Lisboa-Porto (passemos por cima das questões dos modelos de desenvolvimento), (B) responde a (A), dizendo que a decisão da construção foi de (A). Ao que este (A), contrapõe que apesar disso (da decisão de A), Sócrates (B), pode renunciar...

Uf!!!..

Será que ainda não estamos suficientemente cansados de há 30 anos assistir a este ping-pongue?

Será que ainda é possível continuar a ouvir, ao fim de mais de 30 anos (e após cada ciclo eleitoral), este tipo de discussão (entre os partidos da alternância), sem sentir uma náusea invadir-nos as entranhas?...

No balanço, de fim de estrada, rosa/laranja (por vezes também azul), dos nossos neo-liberais de serviço; da defesa da auto-regulação do sacro-santo mercado e do cada vez menos estado... - o que se inscreve é o desastre.

Na bandeja que nos estendem o que se revela é o desaire.

Nesta estrada, praticamente unidireccional, onde as forças se alternam, qual sucessão dos dias e das noites, numa espécie de ritual cósmico bicolor - há os que tal como Vital Moreira tudo façam, para a manutenção deste "determinismo rotativista" - é urgente edificar cruzamentos e derivar para caminhos outros.

Cinco minutos de êxtase democrático

Há os que da democracia têm uma visão minimalista.

Que acham que esta nos tem apenas reservados, 5 minutos quadrianuais - o tempo estritamente suficiente para carimbar o boletim e o depositar na urna.

Pegando na questão ilustrada inicialmente - do PS e da esquerda democrática -, a intensão parece-me óbvia, com um reforço dos votos nos partidos de esquerda (e à sua esquerda) e da sua hecatombe nas eleições europeias, acenam com papões, gastos e desesperados, aos votantes de esquerda e que possam acreditar em verdadeiros projectos de esquerda, com a intensão, de, através do medo, o PS recuperar votos, esquecendo-se, afinal, que @s eleitor@s já ultrapassaram a idade do medo de papões.

(Embora isto não constitua propriamente uma novidade) o argumento tem subjacente a ideia de que em Democracia, a actividade, a luta e os combates políticos, só são legítimos, e se esgotam, nas (e entre) as instituições eleitas: Parlamento, Presidência, etc.

Há que lembrar os dirigentes do PS (e de outros partidos) que a greve, o direito de encontro e manifestação públicos, são formas de exercício da liberdade de expressão e consagradas constitucionalmente. Quem não convive bem com elas e as não respeite, é que talvez tenha problemas e reservas em relação à Democracia.

Terminaria lembrando a nossa responsabilidade no estado das coisas.

Que paralelamente à necessária, responsabilização dos "políticos" é necessário falar da responsabilização dos eleitores. Afinal os 5 minutos permitem-nos optar por manter o estados actual das coisas (e o caminho do desastre), ou quebrar o ciclo e ensaiar verdadeiras alternativas...

John

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