Foi correcto desconvocar a greve da Groundeforce?
08-Set-2009

No dia 28, logo pela madrugada, os trabalhadores da Groundforce reuniram-se em torno do relógio de ponto no edifício 31 do aeroporto de Lisboa para mobilizarem-se para a maior greve desde 1994 no Grupo TAP. Centenas de trabalhadores organizaram-se para dar força ao descontentamento que há muito tem sido apregoado
junto dos Sindicatos e da administração, com pouca preocupação duns e com total desprezo de outros.

Artigo de David Zilhão

Podia-se ver nos cartazes que invadiram a supostamente tranquila e silenciosa aerogare na área das Partidas, carregados pelos grevistas, frases como "Melhores condições de trabalho", "Pelo fim do trabalho temporário", ou faixas a dizer "Falta de pessoal mais desempregados igual a Governo Sócrates". Mas uma das maiores preocupações e um dos mais importantes motivos para ter-se avançado com a greve é o dumping comercial entre as duas concorrentes estatais que operam o handling em Portugal, causando enorme prejuízos à Groundforce, que vende a sua produção abaixo do preço de mercado, favorecendo assim a concorrente e fazendo valer a crise financeira para retirar direitos.

Mas, além da concentração na área das Partidas, a greve teve outras novidades. Na aerogare dos Terminais foram distribuídos milhares de flyer´s aos passageiros a explicar as razões da greve, denunciando que o Governo se preparava para despedir os seus trabalhadores, através de uma privatização às fatias, acabando com os acordos colectivos de trabalho e direitos outrora conquistados por outras gerações de lutadores, a dar continuidade à politica de precariedade e exploração através do trabalho temporário.

Outra das novidades da greve foi o total descontrolo da administração, causado pelo medo de uma luta que prometia, no dia 27, uma adesão de 100%. Por isso, convocou todos os trabalhadores temporários que estariam de folga a apresentarem-se ao serviço e, violando a lei, contratou outros trabalhadores temporários depois do pré-aviso de greve e a empresa de handling concorrente, a Portway, para assistir os aviões. Mas teve mais. O receio foi tão grande que, um a um, a empresa telefonou para todos os trabalhadores, convocando-os para os serviços mínimos, algo que nunca se tinha visto
antes.

A greve teve uma adesão histórica e foi feita sem o controlo dos Sindicatos; a manifestação feita na aerogare com cartazes e faixas foi surpresa para todos. Talvez todos estes factos tenham motivado a reunião de emergência que a administração
fez com Sindicatos e resultou na desconvocação da greve, sem plenário e sem consulta aos trabalhadores. Fica um protocolo assinado entre os Sindicatos e a administração com a promessa de um outro pelo Governo. Ficam de fora muitas das reivindicações dos trabalhadores, tanto mais que o protocolo não salvaguarda postos de trabalho ao não exigir o fim do trabalho temporário e a efectividade de trabalhadores ao fim de um ano de contracto. Além do mais, o protocolo admite a privatização da empresa, dando preferência à proposta compradora que se comprometa a mantê-la "una e indivisível".

Nada de novo. Este protocolo relembra um outro assinado a 19 de Julho que também serviu para desconvocar uma greve, sem garantias, sem futuro e com promessas vagas. A lição de 28 de Agosto é fácil de aprender. É preciso mobilizar e pressionar os sindicatos que reclamam uma vitória que ainda não existe para chamarem um plenário onde se possa, com a participação dos trabalhadores, fazer uma avaliação sobre a correcção ou não da desconvocação da greve e juntar forças novamente para continuar a luta pelas nossas reivindicações.

David Zilhão, trabalhador da Grounforce

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