Um agitado pântano
22-Set-2009

Tiago Gillot Chegados aos últimos dias de campanha eleitoral, já vimos de tudo. É verdade que o pormenor teve direito a destaque várias vezes e não deixaram de desfilar todas as ridicularias para distrair. Mas há muito que não se assistia a uma eleição que discutisse tantas questões centrais para o presente e o futuro, que trouxesse tanta clareza sobre os projectos que vão medir forças. Ninguém votará ao engano, seja lá como for: a utilidade do voto não podia ser mais clara.

A diferença está no facto do centrão não ter conseguido navegar nas águas mortas de outros tempos. É por isso que se instalou uma precipitação e uma irritabilidade que não lhes conhecíamos.

Mas o desespero nem sempre traz clarividência. A prová-lo está uma nova ofensiva sobre a possibilidade de alternativa ao domínio da alternância. Assim se juntam tantas vozes tentando provar que há um "programa escondido" do Bloco, atropelando-se por descobrir mais uma "novidade" nas propostas, mais uma linha que revela tudo sobre o perigo que espreita o país atrás dos votos que serão as escolhas de cada um e cada uma no próximo domingo. Estas eleições, segundo esta teoria de última hora, teriam servido para demonstrar o "verdadeiro" Bloco de Esquerda.

Esta tese tem, no entanto, demasiadas fraquezas. Desde logo, porque o programa do Bloco para estas eleições foi o primeiro integralmente discutido durante semanas, com a participação e as contribuições de muita gente, sobre todos os temas que decidem a vida colectiva e que reclamam a energia dos combates pela cidadania - e que, aliás, conta já centenas de milhares de downloads (gratuitos, aqui) e é hoje amplamente procurado nas livrarias. Mas, sobretudo, porque justamente a força desta alternativa está em que se conheçam e discutam todos os temas que estiveram décadas enterrados por consensos que tinham que ser rompidos.

É por isso estranho, por exemplo, ouvir tantas vozes a dramatizar, fingindo revelar ao mundo que o Bloco quer renacionalizar a Galp e a EDP - então não terão notado que essa foi uma proposta amplamente divulgada, até mesmo em outdoors por todo o país? E como podem acenar com o papão do imposto sobre as grandes fortunas, da justiça fiscal e da subordinação da banca a políticas públicas de crédito, através da CGD - será que não entendem que é justamente por isso que se juntam forças contra este situacionismo das facilidades para os negócios de lucro garantido?

Não há volta a dar. O pântano está agitado e assim terá que suportar as decisões sobre o futuro. Ainda bem. Nestas eleições vão a votos o desemprego, a precariedade, o roubo da exploração para os fracos e do favor para os fortes, o futuro da Segurança Social, o carácter público dos bens e serviços essenciais, as discriminações e amarras que se impõem cinicamente às nossas vidas. É exactamente neste debate que só poderia querer estar o Bloco de Esquerda. Afinal de contas, não nascemos para outra coisa.

Tiago Gillot

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