Um estalinista na RDA
07-Nov-2009
Foto Cristiano Corsini/FlickrO PCP convidou-me em 1979 para ir trabalhar para a RDA. Iria também a Maria Ermelinda e os nossos filhos. Acabara de fazer o estágio pedagógico e ir viver num país socialista era uma aposta interessante. Dados necessários para compreender a situação: estamos em 1979, ainda com a revolução na ponta das nossas esperanças, o socialismo de leste parece estar em boa forma, acredito piedosamente que o comunismo é o futuro e não sei uma palavra de alemão. Era o que hoje, em bom rigor, se chamaria um estalinista chapado. Texto de António Avelãs.

 

Fomos muito bem recebidos, instalados primeiro num magnífico apartamento na Fisherinsel (acho que era assim que se chamava), e um mês depois num apartamento mais modesto — mas muito confortável — num bairro novo, na Ho Chi Minh Strasse. Apartamentos muito melhores do que eu alguma vez tivera em Portugal. A minha paixão de que "o socialismo é que era" acentuou-se com a possibilidade de por os putos no kindergarten — eu nunca tinha andado num jardim infantil. E, tanto quanto me recordo, ainda hoje considero que o kindergarten era excepcionalmente bom. Chateavam-nos se os putos não iam bem agasalhados e, se faltavam, lá vinham eles saber o que passava. Um dia houve em que por descoordenação entre nós — os pais — nos atrasámos a ir buscá-los: levei um enorme raspanete, e o que valeu é que era em alemão e eu não percebi quase nada. Se outras coisas não houvesse, o socialismo era o kindergarten e o extremo cuidado com que lá se tratavam as crianças. Mas era também a possibilidade de ir à policlínica do bairro sempre que algum de nós se constipava — e o cuidado extremo com que os médicos nos tratavam. Sobretudo à Mariana, que andava sempre constipada e a quem eles aplicavam as kurzvwelle (não sei se era tratamento eficaz, mas se era no socialismo era bom com certeza). Lembra-me da figura um pouco assustada da "camarada funcionária" quando, na apotheke, perguntei no meu estranho alemão quanto tinha que pagar pelos medicamentos receitados. Nada, está claro! E o socialismo ia de vento em popa quando via as turmas dos putos invadirem a piscina do bairro, onde eu tentava dar uns mergulhos de manhã quando não tinha aulas. Nunca tinha visto nada de parecido nas escolas primárias do meu país. O socialismo é que era!

Imaginem um "portuga" a quem para ensinar a sua língua a adultos alemães, cujo destino eram as colónias portuguesas, é dado um completíssimo laboratório em que se podiam gravar as aulas, se podia ouvir individualmente o que cada um dizia e corrigi-lo. Alunos que evidentemente nunca faltavam e estudavam sempre impecavelmente as lições. O socialismo é que era, carago! E a prova de que estávamos à beira do paraíso era que, quando recebia o ordenado — ganhava bem e parte do vencimento era pago em marcos ocidentais, um privilégio — já vinha descontada a renda da casa, a luz, a água, o aquecimento, que, no seu conjunto, não ultrapassavam 10% do vencimento (era mais ou menos isso). E para tratar de qualquer problema no apartamento ou no prédio, chamava-se o Hausmeister e ele lá tratava do assunto.

Claro que havia coisas que desde logo me pareceram pequenas lacunas no paraíso: havia nos Strassenbahn (eléctricos, uns modernos, outros do tempo da guerra) umas maquinetas estranhas de onde se tirava um papel que era o "bilhete" e onde se deviam pôr uns trocos prefixados. Eu punha — era para alimentar o socialismo — mas a maioria dos "socialistas alemães" entravam, tiravam o papelucho e… não deitavam as moedinhas! Havia socialistas com falta de consciência de classe — o socialismo ainda não era perfeito. O U-Bahn (espécie de metro) era de fugir. E eu, catequizado na teoria de que o futebol era a alienação das massas, não percebia porque é que todos os dias a Fernsehen transmitia um jogo dessa coisa. Para não falar das inenarráveis borracheiras dos camaradas alemães no fim de semana.

Pior um pouco foi quando me apercebi que o Bock, que era o melhor professor de nós todos, não podia ser director lá da escola nem ter responsabilidades porque era crítico do sistema. E também não gostei nada quando tive de ir "à força" agitar uma bandeirinha à passagem do Brejnev. E quando me consegui relacionar com alguns alemães, pude perceber que a maioria deles, mesmo em Berlim, não viviam como eu vivia. Havia bairros e casas degradados, os meus marcos ocidentais eram um luxo, o "muro" perturbava-os mesmo, e o medo da polícia era permanente. E a maioria deles queria continuar socialista. Mas era evidente que ou havia mudanças sérias — ajudaram-me a perceber o bloqueio que se adensava sobre a economia do país — ou aquilo dava para o torto. Apercebi-me disso pouco antes de me vir embora — embora "eles" insistissem para que eu ficasse. Eu era de confiança!

Não seria justo se não me referisse à cultura que se respirava em Berlim. Bons grupos de teatro, bons concertos no Palast der Republik, museus impecáveis, livros muito baratos (pelo menos quando comparados com o que eu conhecia de Portugal...). Pena que o meu alemão fosse bastante limitado.

Lembro-me do mal estar quando, nas Caldas da Rainha, onde regressei uns tempos quando vim para Portugal, na então Casa da Cultura, falando sobre a minha experiência na RDA, coloquei sérias reticências quanto ao futuro... Seriam certamente já os meus "desvios de direita", com que o PCP me viria sistematicamente a mimar nos tempos seguintes.

Assistir à queda do muro pela televisão doeu-me. Era o fim de um sonho. Apesar de tudo, eu fora feliz na RDA e aquela gente merecia muito mais do que ser "anexada" pela RFA. Apesar de tudo, saí de lá a acreditar que o socialismo superaria a crise.

Hoje, aceito que a queda do Muro era inevitável. E foi sadia para nós todos.

António Avelãs

 

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