O estado da Saúde e a saúde do Estado
26-Fev-2010
No primeiro semestre de 2009, os prejuízos dos hospitais públicos com gestão empresarial aumentaram 91 milhões de euros; em contrapartida, o lucro dos hospitais privados cifrou-se em 700 milhões de euros. Esta realidade não pode deixar de nos espantar.
Artigo do nosso leitor Ricardo Fonseca

Num mundo global, com características neoliberais, a rapidez na tomada de decisões é cada vez maior. A informação circula com a velocidade do espaço cibernético, acabando por ficar dispersa num conhecimento deficiente, tanto mais quanto ela mesma pode ser contrária aos interesses do sistema.

É o caso exemplar dos hospitais públicos com gestão empresarial (EPE). Se dum lado vemos os prejuízos aumentar sempre que se divulgam os resultados; nos hospitais privados, sucede exactamente o contrário, vêem-se os lucros aumentar sempre que se conhecem os relatórios. Ocorrem-nos então uma série de perguntas: O que os separa assim tanto? Será do país ou da região onde estão inseridos? Será dos doentes? Será dos medicamentos que utilizam? Será, por fim, da organização e da gestão rigorosa, por outras palavras, da gestão eficiente?

No primeiro semestre de 2009, os prejuízos dos hospitais públicos com gestão empresarial aumentaram 91 milhões de euros; em contrapartida, o lucro dos hospitais privados cifrou-se em 700 milhões de euros. Esta realidade não pode deixar de nos espantar. Que governos ou que primeiro-ministro conseguiriam uma reforma capaz de tal proeza.

Vistas bem as coisas, o Estado teria aqui uma autêntica galinha dos ovos de ouro. Num tempo em que até a sucata dá milhões e distribui cheques a granel, a pobre galinha dourada dá prejuízos sucessivos. A mesma galinha que deveria aconchegar todos os seus pintos que a ela ocorrem à procura de socorro, escorraça-os de bicada em bicada.

E os portugueses pagam os impostos para cobrir os prejuízos destes hospitais, onde são mal ou nem sequer são tratados. Outros, os que podem, pagam os prémios de um qualquer seguro de saúde, na esperança de alcançar a atenção e a dignidade que merece o ser humano, principalmente na doença. E o Estado, que deveria servir os cidadãos, serve uma nova burguesia e serve os grandes grupos económicos. Estes resultados, não devem, por isso, passar despercebidos, não devem ser esquecidos pelo acumular de ruídos que a comunicação social vai debitando. Na verdade, há gente de boa saúde, diríamos, de excelente saúde. Que o digam os gestores de topo. Os outros, aqueles que trabalham, que paguem os impostos, e fiquem a olhar para o salário que vai diminuindo cada mês que passa.

Esta é a nova falácia deste reino à beira mar plantado. Um reino onde o sol, muito embora nasça a maior parte dos dias do ano, só bronzeia uns tantos.

Ricardo Fonseca

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