Radicalismo versus superficialidade
26-Abr-2010
Os nossos políticos do sistema, revelam-se incapazes de pensar a coisa pública e social livremente e em profundidade.
Artigo do nosso leitor António Leite

O período de todos os radicalismos

- A 13/01/2009 - em plena tormenta - o Secretário da ONU multiplicava-se em apelos. Afirmava: falta alguém para "iniciar a liderança do processo de reestruturação da economia mundial", acrescentando, o "B.M. e o FMI nada fizeram, a OCDE também não, o G7 nada - estamos à espera que algém do G20 assuma essa liderança...".

Estes, parece, não terem ficado indiferentes ao apelo. Assim no final da cimeira dos G20, em Londres a 02/04/2009, emitiram uma declaração, onde constava:

- "... exigência de transparência, contra a opacidade ...",

- "... combate aos off-shores ..." (A OCDE apontou uma lista de países não cooperativos na troca de informações fiscais),

- "... o sigilo bancário do passado tem de acabar ...".

- "... exigência de registo de movimentos de capitais ...",

- "... defesa de uma regulação financeira eficaz ...",

- "... estender a supervisão a agências de supervisão de classificação de risco de crédito ...".

(embora possa parecer, o que acima se encontra escrito não foi retirado do programa do BE (nem do do PC), são, sim, transcrições praticamente literais, da referida declaração dos G20).

- O "observador da santa sé" junto da ONU, defendia a 26/06/2009 - numa intervenção nesta organização:

- "... a necessidade de um desenvolvimento financeiro sustentável ...",

- "... regulamentação para garantir transparência global e o controlo a todos os níveis do sistema financeiro...".

- Sarkozy - falava (pela mesma altura) da necessidade de "um mundo novo" ...

- O Sr. Van Zeller, defendia num "prós e contras" (após a crise já ser declarada uma evidência), que o Estado devia passar a intervir na economia - fazendo antever que na intervenção seguinte iria defender os planos quinquenais ...

Estava-se, é claro, a assistir à chegada das, alterosas vagas, que, ameaçavam tragar os continentes...

Mas o registo iria mudar ...

Da negação

Cabe aqui citar o provérbio; "só te lembras de santa Bárbara quando faz trovões" ... De facto à mais ligeira abertura no denso e negro horizonte, entra-se num processo de rejeição, do anteriormente afirmado e defendido.

- Por um lado trata-se não só de rejeitar as anteriores mensagens - recalcando-as para obscuras instâncias - como de simultaneamente abater os mensageiros.

- Trata-se por outro de garantir que nada mudará.

- Ganhando corpo uma reacção conservadora.

É neste registo que todos os epítetos - contra quem possa ser identificado com as anteriores ideias de mudança - são permitidos.

(Usam e abusam de epítetos - com óbvias intenções depreciativas - como; "esquerda radical", "extrema esquerda", "partidos sem ambição de governar - logo irresponsáveis" , etc, etc,.. - Por exemplo; Saldanha Sanches numa entrevista televisiva, frente a um dirigente do CDS e ladeado por Mário Crespo (no fim de 2009 ou início de 2010), afirmava que "...o BE e o PC não, que são partidos ‘anti-sistema', mas que o PSD e o CDS tinham um contributo a dar para a aprovação do Orçamento (de Estado) ...".

Tudo vale neste jogo de espelhos, tal é o empenho em confundir, baralhar e assustar - lançando nuvens de fumo sobre mentes desprevenidas e/ou incautas.

Querendo fazer esquecer, que se existem, no actual panorama, irresponsáveis; eles são os responsáveis políticos, pela queda no abismo.

Foram eles que nos últimos 25 anos, santificaram os mercados, fecharam os olhos às suas regras - praticando o "laissez faire, laissez passer" -, enquanto defendiam o estado mínimo.

Pretendem agora os partidos "do sistema", aparecer como os (responsáveis) salvadores da queda capitalista - de que foram co-responsáveis. Quais personagens burlescas de uma qualquer ópera-bufa de mau gosto.

Opções

Hegel afirmou que, liberdade, autonomia e desinteresse são condição de todo o pensamento especulativo.

Os nossos políticos do sistema, revelam-se incapazes de pensar a coisa pública e social livremente e em profundidade. (Assumindo-se como meros gestores do sistema). Agrilhoados que estão a teias de interesses privados, e tolhidos por preconceitos ideológicos.

Falta-lhes a autonomia e o desinteresse, que permite tudo pensar e tudo questionar.

Os "partidos do sistema", revelam-se prisioneiros de um conservadorismo atávico, paralizante e estagnante..

Se dúvidas houvesse, bastaria ouvir as propostas em torno do Orçamento de Estado. Assistindo-se à retoma da cartilha neo-liberal, e, das receitas de sempre.

Neste processo os partidos do arco da governabilidade, acotovelam-se a adquirir protagonismo - pretendendo garantir aos interesses instalados, que continuarão intocáveis, seja qual for o custo...

Os contornos da receita revelam-se; mais austeridade. Pondo a maioria (significativamente empobrecida - e contribuindo, desta forma, para o agravamento das desigualdades sociais) a pagar os desvarios, a especulação, as fraudes e os crimes vários de capitalistas e do seu "sistema". Para a pôr em prática conta-se, é claro, com os partidos do "sistema", reunidos em torno do seu departamento de promoção de negócios - intitulado ... "governo".

Portugal é (como é sabido), um dos países (europeus) cimeiros nas desigualdades sociais.

As propostas (da esquerda), de combate a essas desigualdades, de uma maior justiça económica e de um combate efectivo à corrupção e à fraude, esbarraram sempre (no passado), e, continuam a esbarrar (no presente), no muro de resistência do poder político.

(No início de 2010; os media noticiavam que o lucro diário dos 5 maiores bancos nacionais, durante o ano de 2009 - com a crise plenamente instalada - ascendeu a 4,8 milhões de €).

Acena este mesmo poder político, com esfarrapados argumentos, não permitindo que se adoptem medidas, aplicadas, afinal, noutros países europeus (onde são governo os seus congéneres políticos).

Os nossos neo-liberais, têm de diferente de outros, a maior temeridade perante interesses instalados.

Os partidos do poder pretendem continuar a privatizar lucros e benefícios (a favor de alguns) - numa espécie de orgia promíscua de interesses -, desbaratando bens e recursos públicos - que deveriam promover a melhoria da qualidade de vida da maioria...

(Esta distribuição de mais valias e de rendas - por parte do Estado (convertido em departamento de negócios do regime) - a empresários e privados, tem levado, economistas ortodoxos, da área do poder político, a classificar o regime de "capitalismo sem riscos" - para os capitalistas é claro).

(Acrescentaria que no seu último governo absolutista, o PS (à semelhança de todos os (des)governos anteriores), multiplicou como cogumelos, as PPP e outros contratos com privados, em negócios, frequentemente obscuros, e, invariavelmente, ruinosos para o Estado - leia-se; para todos nós ...).

Saliente-se que o mesmo governo absolutista, abriu ainda caminho, à privatização da água, do ensino superior público e das estradas (ultrapassando tudo o anteriormente feito).

- O "Público" de 15/06/2009, noticiava; que o consórcio Amorim Energia - após a privatização da GALP, e desde que entrou no seu capital - já tinha arrecadado 330 milhões de € em dividendos brutos (em apenas cerca de 4 anos) (notícia acompanhada da imagem de um Américo Amorim rasgadamente sorridente). A Sonangol 90 milhões e Isabel dos Santos (a 4ª maior accionista) 56 milhões.

Com a privatização da GALP, o estado catapultou Amorim para o 1º lugar do podium dos mais ricos do país.

Que acham os leitores?, excelente distribuição esta que subtrai recursos, públicos, à maioria, entregando-os a um pequeno grupo - qual política anti-Robin dos bosques !!!...

Eu anotaria aqui que;

Etimologicamente (como se sabe), radical significa; referente à raiz, essencial ...

Historicamente o termo foi aplicado a organizações ou movimentos, vários, que preconizavam reformas profundas, como por exemplo os defensores do sufrágio universal (entre outros)...

- No fundo, para os políticos do "sistema", toda a história já se encontra escrita (quanto muito há um ou outro retoque cosmético a dar)!.

- Aos que à cerca de um ano perguntavam se se estava a assistir ao fim do capitalismo? - É possível hoje responder: Não!

- Cabe hoje colocar outra pergunta: Poderá o capitalismo reformar-se?

- Será, afinal, o capitalismo reformável?

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