Autocarros e classes sociais
11-Jan-2007

João Teixeira LopesA demagogia populista far-me-ia dizer que não era necessário mudar a rede dos transportes colectivos do Porto. Deixar tudo como está, ignorando a nova realidade do metro e as dinâmicas da mobilidade soaria a alguns como a solução ideal, perante a fúria dos protestos populares. Não o farei. A intermodalidade tem de ser uma realidade.

Dito isto, não se compreende, por um lado, a ausência de compensações indemnizatórias à STCP, por parte do Governo, que cria a suspeita de motivos economicistas por detrás da nova rede, nem, tão-pouco, o constante adiamento da instalação da Autoridade Metropolitana de Transportes. E, pior do que tudo, o autismo da empresa face aos utentes (cujas comissões necessitam de ser respeitadas e consultadas em todos os processos, como de resto sempre tem defendido na Assembleia da República o Bloco de Esquerda) e a profunda ignorância das autarquias PS e PSD (das câmaras municipais às juntas de freguesia) que tiveram em mão todos os documentos e, salvo raras e honrosas excepções, nada disseram. O Silêncio habitual de quem está desligado do viver das gentes.

Por outro lado, percebeu-se como a cidade do Porto está profundamente dualizada e como os transportes públicos são dos raros recursos que permitem aos pobres ser menos pobres, no sentido da integração no espaço público e do exercício da cidadania. Com um autocarro, como me dizia uma jovem mulher, «consigo procurar emprego, sem a carreira fico em casa». Aliás, não é certamente por acaso que os «bairros perigosos» foram os mais prejudicados: menos autocarros, menor frequência, eliminação dos horários nocturnos. Uma vez, aquando da preparação da Porto 2001, falava com dirigentes associativos de um bairro social. A certa altura interpelaram o meu belo discurso sobre a democracia cultural e a formação de públicos: «ouça lá, como é que a gente vai aos espectáculos, que são no centro da cidade, se o último autocarro passa às nove da noite?». Fiquei sem resposta. Ela está nas ruas, agora, misturada com a raiva difusa de quem já não suporta tanto sofrimento, tantas políticas de miséria.