Políticos manhosos
02-Fev-2007
luis_branco.jpgNa semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa gabava-se de ser o pai do referendo e da pergunta de 1998, que é exactamente a mesma que estará no boletim de voto no próximo domingo. Mas logo em seguida, num spot pelo Não, quis demonstrar, bem ao seu estilo, que a pergunta afinal não pergunta bem aquilo que era suposto perguntar. Enganam-se os que acham que o sketch demolidor dos Gato Fedorento vai entrar só para a história desta campanha. Na verdade, ele vai ficar para a história de Marcelo Rebelo de Sousa. A estratégia de lançar a confusão sobre a pergunta é concertada e foi depois repescada por Marques Mendes, o líder partidário que mais faz campanha pelo Não. Primeiro aprovou-a no parlamento, depois disse que era enganosa, em seguida disse que não disse e agora é todo o grupo parlamentar do PSD que derrama lágrimas sentidas por aparentemente ter votado contrariado. Dizem que foram enganados, mas quem os enganou? Terá sido Marcelo Rebelo de Sousa?

Estamos a uma semana de conseguir tirar o país da situação de vergonha em que nos arrastamos com a criminalização das mulheres. A mensagem de solidariedade ao SIM português enviada pelo movimento pró-escolha na Polónia é um aviso sério sobre o que é a agenda oculta dos defensores do Não. Naquele país, um dos poucos que inscrevem a criminalização das mulheres na lei, o aborto clandestino aumenta e a direita já fala em impôr a proibição do aborto mesmo nos casos de risco de vida da mulher.

É provável que a última semana de campanha vá acentuar o descontrolo dos adversários da despenalização, ampliando o volume das vozes do sector mais radical que tem hoje um peso maior no campo do Não do que tinha em 1998. Importa por isso reforçar os apelos à participação de todas e todos no referendo, para resolver de uma vez por todas esta questão no código penal e colocá-la onde nunca devia ter saído: no plano da saúde reprodutiva, do planeamento familiar e na igualdade no acesso à saúde por parte da mulher, quaisquer que sejam os seus rendimentos.  Dizer Sim à despenalização é olhar o problema de frente e começar a resolvê-lo já, sem perder mais oito anos em julgamentos, mortes e riscos do aborto clandestino. O país sabe que é assim e é por isso que, no próximo dia 11, os políticos manhosos vão passar um mau bocado.