Março, Marçagão - Manhã de Inverno, Tarde de Verão
02-Abr-2007

alda_macedo.jpgO conhecimento popular, feito de gerações de aprendizagem e adaptação ao clima, mesmo reconhecendo os riscos que as variações da chuva ao longo do ano representam para a fragilidade da sua economia, já não consegue acompanhar as transformações que ano após ano se têm vindo a revelar cada vez mais inquietantes. Vivemos o tempo da iminência do desastre ecológico em resultado do abuso dos recursos naturais e a urgência de uma política nova impõe-se como convocatória universal.

Desde finais do século XIX a temperatura média global tem vindo a aumentar de forma constante em resultado do aumento de emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa. As consequências deste aumento estão patentes nos sinais da catástrofe anunciada: aumento da violência destruidora dos fogos florestais, fenómenos meteorológicos extremos associados a ondas de calor cada vez mais frequentes, o agravamento dos processos de desertificação, a alteração das correntes marinhas e a subida paulatina do nível do mar.

De acordo com as observações do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, o aumento do nível médio do mar situa-se actualmente entre 1 e 2 mm por ano o que é cerca de 10 vezes mais do que se estima que fosse o aumento durante o último milénio. Se se mantiver a expansão térmica da camada superficial do oceano prevê-se um aumento de perto de 1m até ao final do século. Conter o aumento global das temperaturas e levar a cabo políticas coerentes de redução drástica da emissão de gases que contribuem para o efeito de estufa, é hoje um dos combates políticos mais importantes e mais urgentes.

Em Portugal temos vivido em cada maré viva deste Inverno o drama da impotência diante da força crescente do mar que galga dunas e arribas, altera o desenho da linha de costa e põe em risco as habitações e as vidas das populações costeiras. A subida do nível do mar é certamente uma das causas deste processo, mas não é a única. Existe uma relação dinâmica entre a costa e o mar e os avanços e recuos do mar na costa obedecem a processos de grande plasticidade, que são tão mais equilibrados e tão menos dramáticos quanto melhor for a resiliência dos ecossistemas costeiros perante a investida do mar.

A orla costeira em Portugal está hoje mais frágil, mais incapaz de se recompor por processo natural, mais sujeita ao poder erosivo do oceano e a causa para essa fraqueza está sobretudo na ausência de políticas de ordenamento para a orla costeira. De norte a sul do país, de Caminha até Vila do Conde, de Espinho até à Península de Setúbal, de Lagos a Tavira, governo e autarquias têm incentivado a que se fizesse da paisagem marítima o isco para o negócio mais rentável, o de transformar dunas em terreno de construção, em centros comerciais, parques de estacionamento e empreendimentos turísticos. 

Segundo a Agência Europeia para o Ambiente, Portugal é o país europeu onde o excesso de pressão imobiliária na orla costeira mais se faz sentir, e a principal causa de erosão da costa. Este é o quadro que não pode continuar. É preciso uma nova racionalidade que se oponha à desrazão da gula do enriquecimento rápido.

Acabar com esta obscenidade de destruir ecossistemas naturais por amor do negócio imediato de uns tantos metros quadrados de construção com vista para o mar tem que ser a agenda prioritária da intervenção política de todos e todas que se situam de uma perspectiva ecosocialista. É preciso exigirmos nas nossas autarquias, particularmente aquelas onde o processo erosivo tem sido mais violento, que haja moratórias a toda a nova construção em zona costeira. Diminuir a pressão imobiliária sobre a duna tem que ser uma prioridade. É preciso re-naturalizar as dunas, recuar a ocupação, impedir a circulação automóvel sobre a duna, regular o acesso às praias, dar espaço, tempo e oxigénio para a recomposição natural dos ecossistemas.

Estas são escolhas difíceis, que exigem uma grande clareza e frontalidade, exigem a implicação dos moradores, o esclarecimento dos riscos que estão envolvidos. Exigem uma grande mobilização de vontade e acima de tudo exigem uma forma de viver a democracia que não se compadece com pensamento de rotina.

Alda Macedo