A noite e o riso
20-Abr-2007

João Teixeira LopesPacheco Pereira reiterou, recentemente na sua coluna no jornal Público, uma velha teimosia. Na verdade, sempre que se denunciam os crimes da extrema-direita, este intelectual orgânico do novo velho conservadorismo não resiste à tese dos espelhos. Se a extrema-direita se torna potencialmente perigosa, tal deve-se, nem mais nem menos, aos culpados do costume: aos jornalistas, sedentos de negócios e audiências, e aos activistas de esquerda, que protestam contra algo que, de acordo com Pacheco Pereira, deveria ficar no silêncio da passividade e da resignação. De acordo com a teoria da amplificação e intensificação artificial da extrema-direita, os seus delitos, actos de propaganda e crimes não constituem, na verdade, preocupação. Desde que não se fale nele, o monstro não medrará.

Ora, o monstro está pujante à vista de todos: pistolas, algumas transformadas para disparar munições de calibre proibido, soqueiras, bastões e vasto material de incitamento ao ódio racista apreendidos pela Polícia Judiciária serão, para o articulista, coisa pequena...Decerto, as mortes que estes criminosos já causaram, como a do cabo-verdiano Alcino Monteiro, ficariam melhor se não nos interpelassem a memória e a acção. É sempre curiosa a génese da amnésia selectiva em alguém que, como Pacheco Pereira, se proclama historiador.

Mas o artigo de Pacheco Pereira só desvenda o seu fito nos últimos parágrafos. Na verdade, de acordo com o colunista, o cartaz-resposta dos Gatos Fedorentos mais não fez do que publicitar as causas fascistas, até por que os jovens humoristas não são isentos e jamais troçaram de Francisco Louçã. Eis a perfídia em todo o seu esplendor: um artigo inteiro para chegar à pequena mentira, reles, intriguista e pouco assumida - os Gatos estão ao serviço do Bloco! - não está lá, mas é tudo o que Pacheco pretende dizer, não dizendo. Não tem sequer piada. Pacheco nunca foi grande amigo da sátira e do poder libertador do riso.

Quem tem medo do humor corrosivo e combativo dos Gatos? Não é só Pacheco Pereira...A Juventude Comunista Portuguesa, conjuntamente com os jovens dos Verdes (sim, dá vontade de rir...) e a organização juvenil da CGTP (três duplicatas da mesma estrutura-mãe: o Partido Comunista Português) impediram Ricardo Araújo Pereira de ler o manifesto dos jovens nas comemorações do 25 de Abril.

Não são raras as ocasiões de objectiva cumplicidade e simpatia mútua entre o articulista e o PCP. Na verdade, alguma estrutura de sentimentos será comum. Algo os une neste medo da galhofa, da subversão, da desordem criativa. Algo os projecta na noite e afasta do riso.

João Teixeira Lopes