A censura dos guardiões do templo
27-Abr-2007
dossie_tabaco3Segundo este bloguista não fumador, estamos perante dois problemas diferentes. "Por um lado, existe a necessidade de garantir a protecção dos fumadores passivos, por outro lado, parece-me a mim que cada um de nós tem de respeitar o direito dos fumadores activos de se entregarem ao prazer dos cigarros, por muito que até não consigamos compreender que prazer poderá advir do acto de fumar um cigarro." E pergunta: "uma vez garantida a protecção dos fumadores passivos, que necessidade há de estigmatizar os fumadores activos?" Veja o artigo no blogue correspondente ou leia mais.  

CIDADANIA E CIGARROS

Se há coisa que eu detesto, é sentir-me cercado, sentir que o meu comportamento está a ser observado, 'monitorizado' e censurado por quaisquer guardiões do templo. Tudo isto a propósito da proposta de lei sobre o consumo do tabaco.
Esta coisa de fumar tem muito que se lhe diga, pelo que começo por uma declaração de interesses:

1- nunca fumei, nunca sequer encostei um cigarro à minha boca;
2- tenho problemas respiratórios;
3- o meu pai morreu de cancro do pulmão (esta é a vantagem do anonimato, posso dizer isto sem estar a revelar a minha intimidade).

Dito isto, eis a minha posição sobre a questão:

Segundo me parece, estamos perante dois problemas diversos. Por um lado, existe a necessidade de garantir a protecção dos fumadores passivos, por outro lado, parece-me a mim que cada um de nós tem de respeitar o direito dos fumadores activos de se entregarem ao prazer dos cigarros, por muito que até não consigamos compreender que prazer poderá advir do acto de fumar um cigarro.

Mas vamos por partes.

Sobre os fumadores passivos: quem são os fumadores passivos? São todas as pessoas que inalam o fumo de cigarros. Mesmo os fumadores activos são fumadores passivos, quando inalam o fumo dos outros, ou mesmo quando pousam o seu cigarro no cinzeiro e o deixam arder. É sabido que o fumo dos cigarros faz mal à saúde. É sabido que o fumo dos cigarros se espalha pelo ar sem ter em conta a quem é que vai incomodar. Por essa razão, não me parece mal que se restrinja a possibilidade de fumar em locais fechados.

A dada altura trabalhei num escritório em que, na sala onde tinha o meu posto de trabalho, havia três pessoas com problemas respiratórios. Não foi difícil impor às outras dez (às vezes mais) a proibição de fumar. Naquela sala não se fumava. Na sala ao lado fumava-se. Pouco tempo depois, eram os próprios fumadores activos da sala ao lado que lamentavam o facto de não terem seguido o nosso exemplo. Mas isto foi feito por consenso entre todos. E no final, todos reconheciam que tinha sido uma boa decisão.

Tendo em conta a falta de civismo que tanta gente tem, não vejo grande mal em que a lei venha proteger aquelas pessoas que se sentem incomodadas pelo fumo dos outros, e que, muitas vezes, são obrigadas a suportá-lo, uma vez que, habitualmente, o ónus de levantar o problema cabe aos não-fumadores, e estes nem sempre estão em condições de o fazer (por exemplo, num escritório, a antiguidade é um posto, quem chega adapta-se, dificilmente consegue ou tem sequer a veleidade de propor uma mudança de hábitos aos que já lá estavam antes).

Sobre os fumadores activos: pois é, o diabo esconde-se nos detalhes... Uma vez garantida a protecção dos fumadores passivos, que necessidade há de estigmatizar os fumadores activos?

Refiro-me, é óbvio, à possibilidade de estampar nos maços de cigarros imagens de órgãos humanos danificados pelo tabaco, de colocar fotografias de cadáveres, e mesmo, como já actualmente acontece, frases intimidatórias sobre as consequencias nocivas do tabaco.

Com que direito vem o Estado criar tais constrangimentos aos fumadores?

Mais, sabendo-se que o tabaco é viciante, e que quem compra tabaco, regra geral, já está viciado (sobretudo se falarmos de adultos), logo, alguém que tem um problema que é encarado actualmente como uma doença, que necessidade há em estigmatizar os fumadores activos? Já não lhes bastam os riscos que correm por causa de fumarem? Haverá porventura necessidade de incutir neles um sentimento de medo perante a doença, perante o sofrimento futuro? Para quê? para lhes tirar o prazer do tabaco? Qalquer pessoa que já tenha tido necessidade de fazer uma dieta sabe que sentir-se acossado é contraproducente. Qualquer pessoa que já tenha roído as unhas sabe que quanto mais lhe diziam que parasse, mais vontade tinha de continuar a roe-las.

Por outor lado, se tivermos em conta que os efeitos nocivos sobre terceiros do consumo de alcool são muito mais graves que os efeitos nocivos do tabaco, devido à correlação entre o consumo de alcool e os mortos em «acidentes» de viação, não podemos compreender como é possível que um governo que tão paternalmente procura corrigir o comportamento desviante dos fumadores activos, tolere a publicidade ao alcool. Sobretudo a publicidade enganosa, baseada em slogans como « a mais gostosa é a ruiva»; « tudo por uma boémia»; « é mais fácil beber que dançar». Ora basta sairmos de casa, a qualquer hora do dia ou da noite, para nos depararmos com outdoors, muitos deles estrategicamente colocados nas estações de Metro e nas paragens de autocarro, que nos seduzem para os prazeres do alcool...

Assim, concluo que esta opção por apostar nas emoções macdonaldizadas visa sobretudo coagir as pessoas que fumam. E aqui, entra a questão da cidadania e da liberdade.

Se não formos livres de nos destruirmos conscientemente, então não somos livres (desde que não arrastemos os outros para a destruição).

Se apenas formos livres de sermos virtuosos, então, não somos livres.

Será isto a esquerda liberal? Liberal quando se trata facilitar a vida aos oligopólios das cervejas, 'socialista' quando se trata de, em nome da comunidade, criar constrangimentos à liberdade que cada um de nos matarmos devagarinho como mais nos apetecer...

7 de Abril de 2006.