Slavoj Zizek
30-Jul-2006

UM DIA DE CÃO
zizekA 15 de Janeiro começou nos EUA a quinta temporada da série "24 Horas", criada por Joel Surnow e Robert Cochran e que estreou em 2001. Cada temporada desse sucesso fenomenal da Fox Network é composta de 24 episódios de uma hora, correspondentes a uma hora do dia -a temporada inteira cobre os acontecimentos de um único dia.
O tema é a tentativa desesperada da Unidade de Contraterrorismo (CTU na sigla em inglês) de Los Angeles de evitar um acto terrorista de magnitude catastrófica - como, na quarta temporada, a explosão de uma arma nuclear roubada sobre uma megalópole americana.

 

A acção decorre entre os agentes da CTU (o personagem principal da série, o agente Jack Bauer, é interpretado por Kiefer Sutherland) e também na Casa Branca e entre os terroristas. A característica de "tempo real" da série, em que cada minuto de programa corresponde a um minuto da vida dos personagens, confere-lhe uma forte sensação de urgência, enfatizada pelo avanço de um relógio digital que aparece ocasionalmente na tela.

E se houver pessoas que cometem actos terríveis como parte de seu trabalho enquanto continuam sendo maridos amorosos, bons pais e amigos fiéis?


Essa dinâmica é acentuada por uma série de processos formais: do uso frequente de câmaras manuais à divisão da tela para mostrar acções simultâneas de vários personagens.
"24 Horas" é uma série altamente comercial: quase um terço de cada capítulo é gasto em intervalos publicitários que interrompem o programa. A maneira como os anúncios cortam a continuidade da narrativa é em si mesma única e contribui para a sensação de urgência: um capítulo, incluindo a publicidade, dura exactamente uma hora, de modo que os intervalos fazem parte da continuidade de uma hora da série.
Por exemplo, vemos o relógio digital na tela mostrar que são 7:46; então há um intervalo comercial e depois voltamos ao programa com o relógio digital mostrando que agora são 7:51.
A duração do intervalo no tempo real dos espectadores equivale exatamente à brecha temporal da narrativa no ecrã, como se os intervalos comerciais milagrosamente se encaixassem no desenrolar dos factos em tempo real; isto é, como se fizéssemos uma pausa nos factos, que, porém, continuam acontecendo enquanto assistimos aos anúncios, como se uma transmissão ao vivo fosse temporariamente interrompida. É como se a continuidade da acção fosse tão premente e urgente, transbordando para o tempo real do espectador, que não pode ser interrompida pela publicidade.

Espaço de sombra
Isso leva-nos enfim ao ponto crucial: a dimensão ética dessa ubíqua sensação de urgência. A pressão dos acontecimentos é tão poderosa, as apostas são tão elevadas que exigem uma espécie de suspensão ética das preocupações morais corriqueiras: demonstrar preocupações morais corriqueiras quando milhões de vidas estão em risco é fazer o jogo do inimigo. O coletivo CTU, assim como seus adversários terroristas, vive e actua num espaço de sombra não abrangido pela lei, fazendo coisas que "simplesmente têm de ser feitas" para salvar nossas sociedades da ameaça terrorista.
Isso inclui não somente torturar os terroristas quando são apanhados mas torturar os próprios membros da CTU ou seus parentes próximos quando eles são suspeitos de ligações com os terroristas.
Na quarta temporada, estão entre os torturados o genro e o filho do secretário da Defesa (com pleno conhecimento e apoio do secretário) assim como uma mulher membro da CTU erroneamente suspeita de passar informações para os terroristas (depois da tortura, quando novos dados confirmam sua inocência, ela é convocada a voltar ao trabalho imediatamente, pois há uma emergência e precisam de todo o pessoal, e ela aceita...).
Os agentes da CTU não tratam dessa maneira somente os terroristas e os suspeitos -afinal, estão lidando com uma "situação contra o relógio" evocada por Alan Dershowitz [advogado, escritor e professor de direito em Harvard que se tornou famoso ao ter seu livro "O Reverso da Fortuna" adaptado para o cinema em filme homónimo, de Barbet Schroeder] para justificar a tortura (por que não torturar um terrorista preso que sabe onde está escondida uma bomba que explodirá em breve e matará centenas de milhares de pessoas?). Eles também se consideram descartáveis, sempre dispostos a colocar suas vidas e as de seus colegas em jogo se isso ajudar a evitar o acto terrorista.
Jack Bauer personifica essa postura no sentido mais puro: sem qualquer hesitação, ele não apenas tortura outros, não apenas perdoa quando seus superiores colocam sua vida em risco; no final da quarta temporada, ele até aceita ser entregue à República Popular da China como bode expiatório de uma operação secreta da CTU que matou um diplomata chinês. Embora ele saiba que lá será torturado e preso pelo resto da vida, promete não dizer nada e nunca prejudicar os interesses dos EUA.
O fim da quarta temporada deixa Jack em uma situação paradigmática: quando é informado pelo ex-presidente dos EUA, seu íntimo aliado, de que alguém do governo ordenou que ele seja morto (entregá-lo aos chineses é considerado um risco de segurança excessivo), seus dois amigos mais próximos da CTU encenam sua morte e então ele desaparece no nada, anónimo, oficialmente inexistente.
Não só os terroristas mas os próprios agentes da CTU operam do modo que o filósofo Giorgio Agamben chama de "homini sacer", os que podem ser mortos com impunidade já que, aos olhos da lei, sua vida não mais importa. Enquanto continuam agindo em nome da lei, seus actos não são mais cobertos e restritos pela lei - eles operam em um espaço vazio dentro do domínio da lei.
É aqui que encontramos a mentira ideológica fundamental da série: apesar dessa postura absoluta e impiedosa de auto-instrumentalização, os agentes da CTU, especialmente Jack, continuam sendo "seres humanos calorosos", amorosos, presos aos dilemas emocionais comuns a nós, pessoas "normais".
Eles amam suas mulheres e seus filhos, sentem ciúme - embora estejam sempre prontos a sacrificar seus interesses e as vidas das pessoas amadas às exigências de sua missão. Eles são um pouco o equivalente psicológico do café descafeinado: fazem todas as coisas horríveis que a situação exige, mas sem pagar o preço subjectivo por elas.

Excesso a eliminar
Consequentemente, não se deve relegar "24 Horas" a uma simples peça de entretenimento da cultura pop e uma justificativa dos métodos problemáticos que os EUA estão a utilizar na "guerra ao terror" - há muito mais em jogo. Lembrem da lição de "Apocalypse Now", de Coppola: a figura de Kurtz não é uma lembrança de um passado bárbaro, mas o resultado necessário do próprio poderio ocidental moderno.
Kurtz era um soldado perfeito -como tal, por meio da superidentificação com o sistema de poder militar, transformou-se no excesso que o sistema teve de eliminar numa operação que imitou o que ele mesmo combatia (a missão de Willard para matar Kurtz não existia nos registos oficiais, "nunca aconteceu").
O problema dos que estão no poder é: como obter Kurtz sem a patologia de Kurtz, como levar as pessoas a fazerem o trabalho sujo necessário sem as transformar em monstros? Esse já foi o dilema de Heinrich Himmler. Quando confrontado com a tarefa de liquidar os judeus da Europa, Himmler, o chefe das SS, adoptou a postura heróica de "alguém tem de fazer o trabalho sujo, então vamos fazê-lo!": é mais fácil fazer uma coisa nobre por seu país, até sacrificar a própria vida por ele - mas é muito mais difícil cometer um crime por seu país...

Inversão da lógica

Em "Eichmann em Jerusalém", Hannah Arendt faz uma descrição precisa da distorção que os executores nazistas conseguiram efectuar para suportar os terríveis actos que cometeram. A maioria deles não era simplesmente má, era muito consciente de que estava fazendo coisas que provocam humilhação, sofrimento e morte às suas vítimas. A saída dessa categoria era que, "em vez de dizer: "Que coisas terríveis eu fiz às pessoas!", os assassinos conseguissem dizer: "Que coisas terríveis tive de presenciar no cumprimento de meus deveres, que grande peso sobre meus ombros foi essa tarefa!'".
Dessa maneira, eles conseguiam inverter a lógica de resistir à tentação: a tentação a se resistir era a própria tentação de sucumbir à piedade e simpatia elementares em presença do sofrimento humano, e seu "esforço" ético era dirigido para a tarefa de resistir a essa tentação de não matar, torturar e humilhar. Minha própria violação dos instintos éticos espontâneos de piedade e compaixão é assim transformada na prova de minha grandeza ética: para cumprir meu dever, estou disposto a assumir o grande peso de infligir dor a outras pessoas.
Existe outro "problema ético" aqui para Himmler: como garantir que os carrascos das SS, enquanto realizavam esses actos terríveis, continuassem sendo humanos e mantivessem sua dignidade? A resposta foi a mensagem de Krishna a Arjuna no "Bhagavad Gita" (o livro sagrado que Himmler levava sempre no bolso numa edição especial encadernada em couro): execute seus actos com um distanciamento interno, não se envolva totalmente neles.
Aí também reside a mentira de "24 Horas": na presunção de que não apenas é possível preservar a dignidade humana ao executar actos de terror mas que, quando uma pessoa realiza esses actos como um pesado dever, adquire uma grandeza trágico-ética adicional. A própria comparação entre os agentes da CTU e os terroristas com relação a essa faceta (na quarta temporada, Marwan, o homem mau, também é mostrado como um pai e marido dedicado e amoroso) serve a essa mentira.

Catástrofe moral
Mas e se essa distância for possível? E se houver pessoas que cometem actos terríveis como parte de seu trabalho enquanto, em particular, continuam sendo maridos amorosos, bons pais e amigos fiéis? Como Arendt sabia, longe de redimi-las, o facto de elas conseguirem manter sua normalidade enquanto cometem tais actos é a confirmação definitiva de sua catástrofe moral.
Então, o que dizer da popular e aparentemente convincente resposta a todas essas preocupações e difíceis distinções: "Por que tanta comoção? Os EUA agora estão (semi) abertamente a admitir o que não apenas fizeram o tempo todo mas que outros Estados fizeram e estão fazendo o tempo todo - pelo menos hoje somos menos hipócritas...".
A isso deveríamos responder com uma simples pergunta: "Se os representantes máximos dos EUA querem dizer apenas isso, por que, então, nos contam? Por que não continuam a fazê-lo silenciosamente, como fizeram até agora?".
O que é próprio do discurso humano é a lacuna irredutível entre o conteúdo enunciado e seu acto de enunciação: "Você diz isso, mas por que está a dizer-me isso claramente agora?". Imaginemos uma mulher e um marido que convivem com um acordo tácito de que podem ter casos extraconjugais discretos; se de repente o marido contar à mulher sobre um caso que está tendo, ela terá bons motivos para entrar em pânico: "Se é só um caso, por que está me está a contar? Deve ser algo mais!".
O acto de relatar publicamente uma coisa nunca é neutro; afecta o próprio conteúdo relatado. Ou, num caso mais padrão: todos sabemos que uma maneira polida de dizer que achamos estúpida e entediante a intervenção ou fala de nosso colega é dizer: "Achei interessante".
Se, de outro modo, disséssemos a nosso colega abertamente: "Foi entediante e estúpido", ele teria toda justificativa para se surpreender e perguntar: "Mas se você achou entediante e estúpido, por que não disse simplesmente que era interessante?". O infeliz colega estaria certo ao interpretar a declaração directa como envolvendo algo mais, não apenas um comentário sobre a qualidade de seu trabalho mas um ataque a sua própria pessoa.
E o mesmo vale para a recente admissão aberta de tortura: quando ouvimos pessoas como o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, fazer declarações obscenas sobre a necessidade da tortura, devemos lhes perguntar: "Se você apenas quer torturar secretamente alguns supostos terroristas, por que está dizendo isso publicamente?". A pergunta a ser feita é: o que mais existe nessa declaração que levou o orador a enunciá-la? É isso que é realmente problemático em "24 Horas": não seu conteúdo em si, mas o facto de que o que estão nos dizendo abertamente é um triste indício da profunda mudança em nossos padrões éticos e políticos.

Publicado originalmente na Folha de São Paulo a 29/1/2006