A crise do regime é muito profunda
24-Mai-2007
farooq_tariq_foto_jim_mcilrNo final de Março, Jim McIlroy, do [jornal australiano] Green Left Weekly, falou com Farooq Tariq, Secretário Geral do Partido Trabalhista Paquistanês, em Lahore. O PTP é uma organização socialista revolucionária que trabalha juntamente com outras forças com o intuito de pôr fim à ditadura do general Pervez Musharraf, enquanto procura unir trabalhadores, camponeses, mulheres e jovens na luta para instituir o socialismo no Paquistão. A entrevista teve lugar no meio de uma campanha de advogados e respectivos apoiantes para recolocar no cargo o entretanto suspenso Chefe de Justiça do Supremo Tribunal do Paquistão, Iftikhar Mohammad Chaudhry.

Por Jim McIlroy, Green Left Weekly, 12 Abril 2007

 

Quando questionado acerca das causas do actual conflito político, Tariq disse: "O governo militar, que está no poder há sete anos, enfrenta sérios problemas e está a tentar suprimir a oposição. A crise para o regime é muito profunda."

"Musharraf destituiu o chefe de justiça na esperança de não ter quaisquer problemas por isso, como fez (com actos de repressão) no passado. Ele tem prendido e assassinado pessoas, e conduzido uma agenda económica neoliberal sem grande resistência até agora."

"Por exemplo, Musharraf assassinou Akbar Bugti (líder do Partido Jamhoori Watan do Baluchistão) em 26 de Agosto do ano passado, juntamente com alguns dos seus apoiantes."

"Agora, a destituição do chefe de justiça provocou um movimento a nível nacional. Inicialmente estava limitado à comunidade de advogados - e nunca antes tantos advogados fizeram demonstrações conjuntas em todo o país. As demonstrações dos "casacos-pretos" têm sido muito determinadas e militantes."

De acordo com Tariq, "Musharraf não esperava por isso. Isto mostra também a existência de uma verdadeira divisão no alto nível da sociedade. O sector judiciário, conhecido como fortemente pró-militar no passado, está a mostrar verdadeiros sinais de oposição ao regime."

Alguns partidos políticos também se juntaram ao movimento. "A Aliança para a Restauração da Democracia (ARD), uma aliança de 35 partidos e grupos, participou no movimento. Os principais partidos envolvidos na ARD são o Partido Popular Paquistanês, de Benazir Bhutto, e a Liga Muçulmana, liderada por Nawaz Sharif (antigo primeiro-ministro do Paquistão que foi destituído por Musharraf)."

"O regime está a enfraquecer, a tornar-se mais impopular a cada dia. Até mesmo a imprensa capitalista se virou contra o regime."

Tariq explicou que "até agora, o movimento dos advogados ganhou um tremendo, em grande parte inactivo, apoio das massas ainda não mobilizadas. Mas esta é a primeira vez em algum tempo que um assunto que tem ganho a simpatia das massas não foi iniciado pelos fundamentalistas (islâmicos). Os fundamentalistas estão a tentar integrar o movimento, mas este não é visto como um assunto religioso."

"Ao contrário de outros países, os advogados sempre tiveram uma papel progressista na sociedade paquistanesa. Durante o regime militar de Zia ul Haq (1977-86), as instalações dos tribunais tornaram-se o centro das actividades democráticas. Muitos advogados foram presos na altura, por se oporem ao governo. Agora estão a repetir a história."

"Os regulamentos internos das Associações de Advogados são muito democráticos, com eleições anuais, por regra ganhas por opositores do regime. As Associações de Advogados nunca aceitaram Musharraf como líder legítimo."

"Jovens advogados estão agora na liderança. Enfrentam a sua primeira repressão política, eles têm sido verdadeiros lutadores."

Tariq descreveu a "difícil decisão" que o PTP tomou de adiar o seu congresso, que estava marcado para 24 e 25 de Março, para poder participar de forma mais efectiva neste movimento. "Queremos participar com todo o empenho nesta campanha porque vemos nela uma oportunidade de expor a verdadeira natureza do regime, que é bastante repressiva, e de ajudar a desenvolver a actual disposição revolucionária entre secções do sector consciente da sociedade."

"Portanto, a política do PTP é, por um lado, fortalecer o movimento de massas contra o regime e, por outro lado, criar também uma oposição de esquerda ao regime. Somos o único partido de esquerda que se opôs de forma consistente ao regime com actividades modestas, realizadas de acordo com os nossos recursos."

De acordo com Tariq, a sociedade paquistanesa está "dominada pelo crescimento do fundamentalismo religioso, devido às acções agressivas do imperialismo americano. As prolongadas ocupações do Afeganistão e do Iraque estão a promover o fundamentalismo religioso no Paquistão. A esquerda não poderá ser uma força alternativa se usar apenas palavras, e não acções, contra o regime militar."

Quando questionado acerca do futuro do movimento, Tariq respondeu: "O regime militar enfrenta tempos difíceis. Está a perder apoio entre as massas, devido à sua rápida implementação de políticas neoliberais. O governo afirma que o rendimento per capita cresceu de 480 dólares (1999) para 1000 dólares (2007). O governo afirma que a economia está a crescer, que há dinheiro nos cofres. E argumenta que o crescimento actual irá no futuro erradicar a pobreza - o chamado efeito trickle down" [concentra-se riqueza ao alto nível e esta riqueza irá finalmente chegar aos sectores mais empobrecidos da população, desta forma beneficiando toda a sociedade].

"A verdade é que todas as sondagens independentes mostram que a pobreza tem crescido no Paquistão, que há mais desemprego e uma maior monopolização da economia. Assistimos ao colapso da lei e da ordem, e da segurança; mais homicídios, suicídios e ataques a mulheres. O crime de rua tem aumentado por todo o lado. Todos os indicadores sociais descrevem o colapso da sociedade paquistanesa como um país em desenvolvimento."

Tariq terminou realçando que o PTP expôs a corrupção generalizada relacionada com os programas de privatização do regime de Musharraf, e que uma consciência pública tem crescido no Paquistão sobre a necessidade da ditadura terminar para que as condições sociais do povo melhorem.