Sacco e Vanzetti executados há 80 anos
07-Ago-2007

Cartoon de Fred Ellis publicado em 22/08/1927 no Daily Worker, um jornal comunista da cidade de Nova IorqueNicola Sacco (22 de Abril de 1891 - 23 de Agosto de 1927) e Bartolomeo Vanzetti (11 de Junho de 1888 - 23 de Agosto de 1927) eram dois anarquistas americanos, nascidos na Itália, que foram presos, julgados e executados por electrocussão em Massachusetts. A acusação era de roubo e homicídio, mas o processo e a culpa dos dois homens sempre foram alvo de contestação. O julgamento foi injusto desde a acusação, tendo sido influenciado pelo contexto anti-italiano, anti-imigrante e anti-anarquista.
O juiz do caso, Webster Thayer, declarou ao júri, "Este homem [Vanzetti], apesar de talvez não ter cometido realmente o crime que lhe é atribuído, é todavia culpado, porque é o inimigo das nossas instituições."

O histórico julgamento de Sacco e Vanzetti teve início no dia 31 de Maio de 1921, no Tribunal de Dedham, sob um forte dispositivo policial. O exterior era patrulhado a cavalo e de motorizada, e a sala do tribunal foi alterada com portas deslizantes anti-bomba e grades de ferro nas janelas.

Os dois homens tinham colaborado com Luigi Galleani, editor do jornal "Cronaca Sovversiva" e defensor da necessidade da violência revolucionária. Nesta altura, os radicais anarquistas italianos estavam no topo da lista dos subversivos perigosos dos EUA e foram acusados de diversos crimes, como atentados bombistas e até uma tentativa de envenenamento em massa. A "Cronaca Sovversiva" foi fechada em 1918 e Galleani, com oito dos seus colaboradores, deportado em 1919. A repressão resultou, levando muitos dos anarquistas a desistirem das suas acções de propaganda ou a escondê-las melhor. Contudo, um grupo de cerca de 60 militantes continuou a combater o que consideravam uma retaliação de classe. Durante três anos, atacaram políticos, juízes e polícias, em especial contra os que apoiavam a deportação de imigrantes ilegais, culminando numa bomba na casa do Procurador Chefe A. Mitchell Palmer. O homem encarregado de colocar a bomba, Carlo Valdinoci, morreu quando aquela lhe explodiu nas mãos. Sacco e Vanzetti faziam parte do grupo de Valdinoci. Dois dias antes da prisão de Sacco e Vanzetti, souberam do alegado suicídio de Andrea Salsedo, que sabia quem tinha estado envolvido no ataque bombista à casa de Palmer.

Durante o primeiro julgamento, pelo roubo, Sacco provou que tinha estado a trabalhar, mas não Vanzetti. Sacco tinha o cartão do ponto, Vanzetti apresentou testemunhas que lhe tinham comprado peixe nesse dia, mas o tribunal deu mais ouvidos a outras, não italianas, que diziam tê-lo visto no local do roubo. No segundo julgamento, pelo homicídio, Sacco apresentou provas de que tinha estado no Consulado Italiano. Depois, disse, tinha ido jantar com amigos. A acusação disse que estes amigos eram conhecidos anarquistas.

O advogado da acusação Frederick Katzmann deu mais atenção às posições políticas de Sacco e Vanzetti do que ás provas. Insinuou que Sacco não tinha combatido na Grande Guerra porque não amava os EUA excepto pelo seu salário, tirando partido do facto de ele falar mal inglês. Gritou com Vanzetti, levando-o a gritar também que não tinha morto ninguém "não, nunca na minha vida!"

As provas apresentadas pela polícia revelaram-se equívocas e as testemunhas da acusação duvidosas. No entanto, o júri voltou com um veredicto de culpados, e isso condenou Sacco e Vanzetti à pena de morte.

Em 1926, Sacco e Vanzetti encontraram na prisão de Dedham Celestino Madeiros, um imigrante português, que confessou ter cometido o crime atribuído aos anarquistas. O recurso que apresentaram com este motivo, com o apoio de advogados e do professor de Direito em Harvard Felix Frankfurter, foi recusado por Webster Thayer. Um novo julgamento foi recusado também pelo Supremo Tribunal Judicial e por três juízes do Supremo Tribunal.

Sacco e Vanzetti foram executados no dia 23 de Agosto de 1927, há 80 anos. Os protestos espalharam-se pela Estados Unidos e pelo mundo. Em Genebra, mais de 5.000 pessoas foram para as ruas e destruíram tudo o que era americano: carros, bens e até cinemas que passavam filmes americanos. Frankfurter escreveu um livro expressando a sua opinião de que aquele julgamento tinha sido um teste (reprovado) à justiça americana: "The Case of Sacco-Vanzetti: a critical analysis for lawyers and lawmen". O romance de Upton Sinclair, "Boston", ajudou também a manter a polémica acesa.

Cinquenta anos depois, a 23 de Agosto de 1977, Michael Dukakis, governador de Massachusetts, publicou uma proclamação que efectivamente absolvia os dois homens do crime.