Serra Urgente
27-Set-2007
Alice BritoComo um semáforo viciado, o Governo de Sócrates deu luz verde à Sécil para continuar com as pedreiras na Serra da Arrábida, eternizando-se assim o massacre explícito da riquíssima massa arrabidina.
Deste modo, Sócrates, o ambientalista, pensa que a Serra não foi ainda suficientemente acanalhada pela Sécil e pela voracidade das pedreiras que todos os dias a dinamitam e ensacam.
Este governo consegue combinar com um profissionalismo inquietante, a arrogância do poder e a sobranceria áspera da má-consciência.

O que a exploração das pedreiras ao longo de décadas penosas tem feito à Arrábida, integra um saque sistemático e despudorado de um património natural único.

Um saque industrial, absurdo, atentatório das bases mínimas de um desenvolvimento sustentável, a pirataria e a bandidagem autorizadas do presente, a comprometer sombriamente o futuro.

A cumplicidade arrepiante dos sucessivos governos, e sobretudo deste específico desgoverno Socrático, face à sordidez exploratória de uma indústria ávida e insaciável, a ausência de remorso, de náusea, perante um crime ambiental cometido às escâncaras, ficarão inscritas e integrarão uma das páginas mais vergonhosas da arqueologia de todos os poderes.

A Serra da Arrábida.

Aí se albergam espécimes únicos, fauna e flora a precaverem-se da extinção;

Aí se ouve a estridência do piar de aves raras, ecos de um mundo desconhecido e improvável; aí se pressente o telepático som do silêncio que anuncia o vagido da serra ferida.

Lá dentro se abrigam os bichos para os partos, fruto de amores soltos que a vegetação encobre não por pudor, mas por intimidade.

Serra sábia, esta que contém em cada arriba toneladas de história geológica planetária.

Serra gretada e infeliz, serra vítima de contratos, negócios, acordos, cláusulas, vertigens de lucro a escavar o côncavo dos montes.

Serra Deusa, dádiva de magma sólido que confiou no planeta, firmando-se em contrafortes generosos e leais.

Serra fêmea de dorso verde, a desinquietar corações.

Dizem as fadas que cada vez mais, nas sombras do entardecer ou nas primeiras horas da manhã se intui o sentir telúrico da serra atormentada e intranquila, face à demência senil das pedreiras predadoras.

Falta cimento à nossa estrutura cidadã.

Alice Brito