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15-Out-2007
Alice BritoCom contratos obscenamente lucrativos com a Casa Branca e correlativas ligações à Administração Bush, a Blackwater é hoje uma empresa em áureo período de expansão. Não pretende ficar apenas pela segurança. Estenderá a sua influência a outros sectores, especializando-se em serviços de espionagem e, acredite-se ou não, em missões humanitárias.

A Nordeste do Estado da Carolina do Norte, situa-se a Cidade de Moyock.

Seria uma cidade anódina e anónima, com um pântano de águas escuras a ensombrar-lhe os dias, se uma empresa privada de segurança aí não tivesse a sua sede, e se essa mesma empresa não houvesse, nas últimas semanas, saltado de forma aterradora para as páginas dos jornais, que parecem finalmente ter-se dado conta da imensa iniquidade e violência da Guerra infligida pelos E.U. ao povo iraquiano.

Blackwater. Uma das empresas privadas de Segurança a operar no Iraque ao lado das tropas Americanas. Dois mil e oitocentos hectares é a área ocupada pela sede desta empresa, precisamente na cidade pantanosa de Moyock.

Com contratos obscenamente lucrativos com a Casa Branca e correlativas ligações à Administração Bush, a Blackwater é hoje uma empresa em áureo período de expansão. Não pretende ficar apenas pela segurança. Estenderá a sua influência a outros sectores, especializando-se em serviços de espionagem e, acredite-se ou não, em missões humanitárias.

Neste último campo, já a Blackwater foi contratada pela administração americana para intervir, em New Orleans, aquando do furacão Katrina.

Cada homem da Blackwater foi pago a 900 dólares diários para libertar as pessoas presas no inferno de águas soltas que os diques não suportaram.

No dia 16 de Setembro, a Blackwater matou e feriu no Iraque à queima roupa várias dezenas de pessoas.

Na enxurrada de cadáveres, aí estava uma mulher com o seu bebé ao colo, outras crianças com demasiados órgãos feitos em picado e homens e mulheres comuns que seguiam tragicamente o seu destino.

Esculpidos no relevo dos músculos sólidos, o porte bestial empunha armas de tecnologia eficiente e primorosa; os óculos escuros conferem um glamour tenebroso a estas caricaturas de masculinidade, que se movimentam a mais de cem km à hora no chão da cidade de Bagdad, cidade crucificada nos seus quatro pontos cardeais.

Terminado o massacre, para trás ficaram os gritos das vítimas, gritos semeados ao acaso nas vozes terminais cada vez mais inaudíveis.

Não é o medo febril do soldado inicial que os faz pôr o dedo no gatilho.

As armas são para eles o prolongamento natural das mãos que cumprem, rigorosas, a função de matar.

Bagdade é apenas mais uma subempreitada que executam de acordo com um contrato celebrado, clausulado e assinado como qualquer outro.

A Blackwater é o produto unitário do império imposto por um neoliberalismo brutalizado e brutalizador.

Sem controlo, sem punição, estes mercenários não estão sequer adstritos à Convenção de Genebra, obedecendo somente às ordens de quem dá ordens no patológico universo privativo e predador em que se movimentam.

A Administração Americana veio aliás dizer que declina qualquer responsabilidade no massacre de 16 de Setembro, porque nele não intervieram soldados Americanos.

Marinetti, poeta fascista italiano, proclamava na sua poesia que "A guerra é a higiene da humanidade".

Bush subscreve indubitavelmente esta frase poética que enternece.

Certamente, Durão Barroso também o fará.

Alice Brito