As grandes transformações sociais
19-Nov-2007
A ignorância e a reverência; a delação e o medo; o autoritarismo e a repressão estão novamente instalados na sociedade portuguesa.
Artigo do nosso leitor Jorge Gonçalves.

A adesão à União Europeia e a emigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram estas últimas décadas e que resultaram ou aceleraram mudanças sociais profundas.

As mudanças sociais verificadas em Portugal ao longo da última década foram profundas e mais rápidas do que na maioria dos países europeus.

O sentido geral destas mudanças sociais deveria (diziam eles os partidos do poder), ter sido de aproximação aos padrões de vida europeus, "melhorando" assim a nossa condição de vida.

Em certas situações, as sociedades não têm, dentro de si, forças, dinâmicas e dimensão suficientes para gerar movimentos, correntes políticas que assegurem uma mudança social necessária ou que garantam as conquistas sociais ganhas até hoje com elevados custos na lutas travadas pelos trabalhadores.

Sobretudo nestas políticas neoliberais, pouco abertas ao debate político, politicamente autoritários, como é o caso deste governo que se diz Socialista, culturalmente viradas para si próprias, dotadas de suficientes elites e com uma reduzida expressão das classes médias.

A ignorância e a reverência; a delação e o medo; o autoritarismo e a repressão estão novamente instalados na sociedade portuguesa.

Vivendo numa sociedade aberta de informação, de conhecimento, de modas e de padrões de comportamentos cosmopolitas, os portugueses criaram expectativas e aspirações das sociedades mais desenvolvidas. Mas não têm, na sua economia, na sua cultura e na sua sociedade, capacidade e vontade suficientes para habilitar a sociedade a concretizar essa aspiração.

A esta consciência de atraso no que concerne a melhor ensino, melhor saúde, melhor justiça e melhor redistribuição da riqueza, este governo contrapõe com menos direitos sociais, maior precariedade no trabalho, mais desemprego, aumento da idade da reforma e com pensões menores, ou seja a degradação das condições de vida dos portugueses.

Como é que a sociedade portuguesa entende que o ME justifique o aumento do desemprego na classe docente com o desajuste entre a oferta de formação superior e as necessidades da rede escolar. Será que assim se ataca o insucesso escolar e o abandono escolar?

Agora na ordem do dia está o relatório da Comissão do Livro Branco onde esta propõe a revisão do Código do Trabalho e a revisão da Constituição.

Para que se torne possível despedir sem justa causa, por motivos políticos e ideológicos, despedir por inaptidão, perda de confiança, despedimento colectivo para renovação da empresa, maior flexibilidade na duração e organização do tempo do trabalho, só para falar em algumas das exigências contidas no tal relatório.

Tudo isto em nome da modernidade, da competitividade (dizem os empresários deste país), para os nossos produtos possam concorrer com os países que agora entraram para a CE, países do leste Europeu e ainda a China e Índia.

A ida do ministro da Economia à China onde referiu que os chineses devem investir em Portugal por causa dos baixos salários, não é senão uma referência premeditada das condições à distância que estão a ser criadas para a sua consolidação.

Todas estas propostas não visam mais que não seja os baixos salários, insegurança, instabilidade emocional, maior flexibilidade das relações laborais, enfraquecer o próprio direito do trabalho enquanto direito de protecção dos trabalhadores.

Em nenhum momento ouvimos os patrões a falar em investir na formação profissional dos trabalhadores, em pagar melhores salários, em dotar as empresas de melhores condições de trabalho, de higiene e de segurança de solidariedade dos problemas sociais dos trabalhadores, porque nada disto dá lucro no imediato

Só a luta, a indignação e o confronto vence o abuso!

Jorge Gonçalves de Almada