O outro 11 de Setembro
14-Set-2006

Alberto MatosMesmo sem invocar nenhuma "teoria da conspiração", a verdade é que os acontecimentos do 11 de Setembro foram aproveitados a fundo pela equipa de neocons que rodeia George W. Bush.  Os "danos colaterais", que têm causaram milhões de vítimas por esse mundo fora, começaram nos próprios EUA: o Patriot Act impôs o estado de excepção permanente, suspendendo direitos básicos como a garantia de um julgamento justo e instituindo as prisões especiais e a tortura como prática corrente, em especial fora das fronteiras dos EUA. Guantanamo e Abu Ghraib são a ponta visível do iceberg, mediado pelos "voos da CIA" - não é verdade, Luís Amado?

O próprio conceito da América como "pátria de imigrantes" foi ferido de morte. E será que aumentou a segurança, mesmo com restrições às liberdades? A grande maioria dos cidadãos norte-americanos considera que não e a popularidade do seu presidente nunca foi tão baixa.

Mas as piores consequências do 11 de Setembro foram globais: a proclamada "guerra contra o terrorismo" representa um fracasso absoluto. Basta citar, sem mais comentários, os títulos de alguns artigos do insuspeito "Público", de 11 de Setembro de 2006: "Iraque - um beco sem saída"; "Afeganistão - uma causa perdida"; "Paquistão - meio aliado, meio rival"; ou, ainda, o artigo de opinião de João César das Neves, no "DN": "Como perdemos o 11 de Setembro".

A guerra contra o terrorismo traz associados dois conceitos particularmente nocivos: a "guerra preventiva" e a "guerra infinita" - as quais, de meras teorias neocom, se tornaram um drama com curtos intervalos: Afeganistão, Iraque, Líbano, fronteiras da Síria e do Paquistão - onde mais Irão, se não forem travados?

Quanto ao terrorismo, estamos bem pior do que há cinco anos. Não falo já do terrorismo de Estado e dos seus cabecilhas: o próprio Bush, os seus émulos de Israel e outros aprendizes de feiticeiros. Falo do terrorismo fundamentalista que, a coberto da cor da pele ou da religião, no Oriente como no Ocidente, se alimenta do desespero de multidões que perderam toda a esperança dum futuro melhor. E é criminoso deitar gasolina na fogueira, como fazem os arautos de uma pretensa "guerra de civilizações", de culturas ou religiões.

Lá bem no fundo, a luta continua a ser entre opressores e oprimidos: só a união destes é capaz de evitar a catástrofe e lançar a Humanidade na guerra decisiva e vitoriosa contra a pobreza, a doença, o atraso, a ignorância e todos os fanatismos.