Dar sentido aos dias difíceis que atravessamos
04-Jun-2008
O neo-liberalismo (o nome fino para a especulação sem escrúpulos) é um cancro. Vive da ausência de controlo, e destrói tudo à sua volta. Há mais de vinte e cinco anos que o faz, invariavelmente, nos 4 cantos do mundo, e os seus defensores continuam a vender a ideia. Porque são muito bem pagos, e acicatados pela promessa de enriquecerem ultra-depressa.
Opinião de José Pedro Fernandes

Parte da sua sobrevivência deve-se ao seu anonimato: os manda-chuva do dinheiro grosso são quase invisíveis, para o cidadão comum. E também à imagem que vendem. Passam por empresários como os outros, por patrões como os outros, passam por gente com um pouco mais de sorte, um pouco mais de sucesso.

Mas é por eles que passam as decisões, quando se trata de deslocalizar empresas para a China ou a Malásia (com trabalhadores pagos à malga de arroz), e lançar no desemprego mais uns milhares; e quando se trata de destruir estruturas de coesão e solidariedade social, para as substituir por um lado, por empresas a que só os mais afortunados podem recorrer e, por outro, por uma farsa de serviço público para a generalidade das pessoas, sem qualidade e sem meios. É por eles que passam as ordens para os políticos que têm ao seu serviço, os que fazem as leis convenientes às abençoadas leis do mercado, as tais que só funcionam para quem ganha dinheiro a rodos com a desregulamentação e falta de controlo.

O neo-liberalismo é o inimigo global porque a crise é global. É urgente expô-lo, torná-lo nojento como a pedofilia, fazer com que o cidadão comum o identifique e repudie.

Em Portugal isto é uma parte do imediato: passa por expor as tramóias da banca, os truques semi-legais dos off-shore, tornar todo o assunto uma coisa bem clara aos olhos da opinião pública.

Passa por mostrar à evidência que os mandantes do CDS, do PSD e do PS são os defensores na cena política dos interesses dessas fortunas sujas, e que a pseudo-oposição em que tentam aparentar estar é uma treta.

E, em consequência, passa por impor regulamentação e limites à actividade financeira. Passa por mostrar à exaustão que a política dos últimos governos não se distingue, que eles são agentes de um único "patrão".

Finalmente, passa por apontar uma alternativa (mesmo aceitando que a esquerda tem muito trabalho de casa a fazer).

Esboçando:

Combater o que na CEE é o poder neo-liberal (e internacionalizar esse combate). Aproveitar ao mesmo tempo o que as regras comunitárias têm de útil para os cidadãos.

Afrontar o que no País é a defesa do neo-liberalismo; mas aproveitar também o que no quadro legal puder ser vantajoso.

E não perder de vista, nem deixar que se perca de vista, que a luta primeira (porque haverá outras) de todos nós é a luta pelo fim do neo-liberalismo, e da falência generalizada a que levou o mundo.

Enquanto a liberdade e a rapidez de execução com que o neo-liberalismo actua não forem obrigadas a submeter-se ao controle e aos ritmos dos estados e das organizações internacionais, a guerra continuará a parecer perdida. Não está. A própria falência do sistema torna-o fraco e estes controles inevitáveis, se queremos sobreviver. Afastando os seus políticos da cena e abrindo o espaço aos que querem reconstruir um mundo decente.

José Pedro Fernandes (Maia)