Êxodo do Senegal
01-Out-2006

A LONGA VIAGEM DAS CRIANÇAS AFRICANAS
barcoLíderes religiosos do Senegal abençoam os menores que são enviados em pequenas embarcações até às Canárias. Os seus pais enviam-nos pelo mar, com a esperança que sobrevivam aos perigos, para que tenham uma vida melhor e enviem dinheiro para as famílias.  

O meu pai disse-me: “ vai para Espanha e manda dinheiro para casa”. Seguidamente levou-me a ver o líder religioso muçulmano, que me deu um amuleto e avisou-me: “Quando chegares a Espanha, não te esqueças da tua religião, e, sobretudo recorda a pobreza que deixas para trás. Eu não vim para aqui estudar. Vim para trabalhar. Ganhar dinheiro para enviar ao meu pai”.
M. chegou às Canárias há uma semana, depois de uma acidentada travessia que durou 12 dias num bote, desde a região de Casamansa, no sul do Senegal. A história deste rapaz de 15 anos é igual há do milhar de menores que, como ele, chegaram às Canárias nos últimos meses e que o Ministério do Trabalho e dos Assuntos Sociais trata de distribuir agora entre as variadas comunidades autonómicas.     
Os testemunhos destes rapazes demonstra que foram os seus país e líderes religiosos locais que os empurraram a embarcar numa travessia marítima de 2000 quilómetros, em que muitos outros perderam a vida.
M. é um dos 106 menores subsaharianos que o Governo das Canárias alojou no centro de emergência A Esperança de Tenerife. Estranha Esperança metade colégio, metade prisão. Até há pouco tempo era um reformatório, com o falso espelho do vestíbulo e as suas portas de ferro, com aberturas das vigias nas portas das habitações. 
Só a 400 metros do centro. 105 crianças mais foram alojadas em tendas de campanha de um acampamento de verão.
Os menores têm entre 12 e 17 anos. Quase 80% vem do Senegal; 19% da Guiné Bissau e 1% do Mali. A maioria são de etnia wolofm mas também há sereres, toucolors, diolas, soninkés... Vendo-os jogar futebol com paixão no pátio, esforçando-se nas classes de espanhol ou rindo nas aulas, parece difícil imaginar a pesada responsabilidade que os seus familiares depositaram sobre os seus ombros. Os rapazes estão conscientes que os seus pais e irmãos empenharam o pouco que tinham para pagar a sua passagem. E que devem sacrificar-se para enviar dinheiro o mais depressa possível. Por isso se impacientam e repetem uma e outra vez: “não viemos para estudar, mas para trabalhar”.
A mãe de M.M.S. (17 anos) teve que vender quase todas as ovelhas da família, o televisor e vários móveis para reunir os 1000 euros que custou a viagem do rapaz desde Kaolak, no Senegal, até Nuabidú, no norte da Mauritânia, e desde ai até às Canárias.
O pai de D.B., de 16 anos, que reside em Barcelona desde há três anos, contribuiu com cerca de 460 euros para a passagem do filho, desde Casamansa. A mesma quantia pagou o pai de P.D. (15 anos) e de D.D. (17 anos) por cada um dos irmãos. O irmão mais velho de P.D. (17 anos) contribuiu com um pouco mais, cerca de 600 euros. O pai de M. Foi quem construiu a embarcação que transportou o seu filho desde Casamansa até às Canárias, juntamente com outras 109 pessoas. Três semanas de trabalho duro deste carpinteiro serviram para pagar a passagem do rapaz.
Não é fácil perceber desde a Europa as razões porque cada vez mais senegaleses põe em perigo as vidas dos seus filhos na perigosa travessia até as Canárias. Porem, há certos paralelismos entre as suas histórias e o relatos que faziam os viajantes estrangeiros que há um século criticavam os camponeses espanhóis por lamentar mais a morte de uma vaca que o falecimento de um filho.  
Imperava na altura em Espanha a lógica implacável da sobrevivência: a vaca era imprescindível para alimentar a família, enquanto que o filho era uma boca a mais para alimentar.
P.D. é uma rapaz calado e tímido. Vestido com uma camisola vermelha, aparenta menos idade que os seus 15 anos.
O seu rosto fica ensombrado quando recorda o momento que o seu pai se despediu, à porta de sua casa em Dakar. “Eu tinha muito medo e não parava de chorar, porque era a primeira vez que ia estar só”, disse com a voz embargada. “O meu pai dizia-me: ‘Tens uma família atrás e deves ir para nos ajudar. Em Espanha terás de comportar-te, saber distinguir entre a gente boa e a gente má e não juntares-te a qualquer um. Tão pouco deves esquecer-te da tua religião”.
 M.S, que tem 17 anos, contou o que sucedeu quando recebeu a bênção do morabito (religioso muçulmano) antes de começar a viagem. “Entregou-me um unguento e disse-me que me lavasse com ele antes de subir à embarcação. Também deu-me vários gri-gri para que os levasse à volta da cintura e dos braços. Os gri-gri são amuletos que impedem que te suceda algo de mal, salvo se Alá decida outra coisa. 
O morabito também me disse que cada vez que me encontrasse em perigo durante a viagem, recitasse mil vezes o nome de Alá”.
Qualquer descrição sobre a travessia que realizaram estes jovens põe-nos os cabelos em pé: ondas que varrem a coberta, barcos que se partem que têm que ser reparados com cordas, tubarões que comem a mão de quem adormeceu com um braço fora de bordo... No entanto, a história de M.N.D. é especialmente dramática. O rapaz chama atenção pela tristeza do seu rosto e pelo rosário que acaricia continuamente nos seus dedos largos.
“O meu irmão contraiu o mal do mar”, explica. “Vomitava muito. No final, morreu de fome. Deixamos o corpo no fundo da embarcação até que começou a cheirar muito mal. Então atiramo-lo pela borda fora. Não reparei que ele tinha nos bolsos o pouco que tínhamos. Assim perdi tudo, excepto este rosário. Lembro-me do meu irmão cada dia e cada noite. Sinto-me só. Rezo para que Alá tenha piedade da sua alma”.
Os seus companheiros que o escutaram em silêncio, agitam os seus gri-gri com cuidado.
O controlo crescente das rotas da imigração clandestina que para o Senegal, aumentaram o envio de menores para as Canárias.
As suas famílias sabem que a devolução das crianças ao seu país é muito mais complicada que a dos adultos. Dai que as autoridades espanholas temam que o milhar de rapazes que encheram os centros de acolhimento do arquipélago nos últimos meses não seja mais do que a guarda avançada de um êxodo maciço da juventude africana.

Excertos de uma reportagem do El Pais.