Outras pescas, outras coisas
11-Jun-2008
Na recente questão das pescas muita coisa foi metida no mesmo saco.
Disse-se muita treta, deitou-se poeira nos olhos. Assim é o governo que temos, continuador dos governos que tivemos.
Opinião do nosso leitor José Pedro Fernandes.

Começando pelo ministro responsável, que afirmou de início que o problema não era acudir, de imediato, ao problema do preço dos combustíveis, mas sim reestruturar o sector.

Para a seguir tratar de negociar apoios imediatos às pescas, a nível interno e a nível da CEE, para enfrentar os efeitos da subida dos preços dos combustíveis... Ou seja, reconhecer que o problema era acudir de imediato à situação.

Então para quê as primeiras afirmações? Para responder, sem responder, às exigências que se iam seguir (e estão a ser feitas) dos camionistas, dos transportadores, dos cidadãos em geral. E a resposta é: "não devemos fazer nada, porque as leis de mercado são sacrossantas, os combustíveis estão assim e pronto, aguentem, reestruturem-se". Só que, depois de cumprido o dever religioso de profissão de fé no "inevitável" reinado do neo-liberalismo, foi necessário responder ao mundo real, o tal que é verdadeiramente inevitável, e não deixar as pescas pararem de vez. E o mundo real vai continuar a exigir respostas, em vez de se deixar placidamente destruir.

Poeira nos olhos. O problema era tentar não dizer alto e bom som que o neo-liberalismo é um sistema falido. Que seja claro, não é um sistema com erros, é um sistema falido, sem conserto possível. E os seus arautos não sabem nem querem dizê-lo (porque teriam de expor-se como falhados a substituir com urgência). Negociar apoios imediatos é reconhecer isso mesmo: o sacrossanto mercado não se auto-regula. E os estados têm de intervir, e vão continuar a ter, para consertar o caos neo-liberal. De que os actuais preços absurdos dos combustíveis são uma das manifestações.

Mais poeira nos olhos: falar também da necessidade de reestruturação do sector das pescas. Quando não se avançam prazos a cumprir a esse respeito, nem ideias sobre o que é urgente fazer, falar disso é dizer umas balelas politicamente correctas. Mais uma forma de cultivar a desonestidade intelectual básica que a defesa do neo-liberalismo exige.

Que essa reestruturação é urgente já é claro há anos. Sem prazos nem ideias continuará a ser uma coisa adiada. E terão de ser os intervenientes directos a tomar o problema em mãos, com carácter de urgência, porque há anos, há dezenas de anos, os nossos sucessivos governos apenas adiaram.

Outras pescas, precisam-se!

Outras pescas, em que não se destruam recursos. Outras pescas, em que os pescadores nacionais sejam pagos decentemente e não emigrem para tudo o que é sítio. Outras pescas, em que os armadores nacionais não sejam uma espécie "inevitavelmente" em extinção, como não o são, basta olhar, os armadores espanhóis ou franceses. Outras pescas, em que os intermediários entre o produto da pesca e os consumidores de peixe não sejam uma parte (e nada pequena) do problema.

Outras pescas, se formos a tempo, ou teremos de voltar a criá-las depois de as deixarmos destruir. Outras coisas e não mais do mesmo, se quisermos ir a tempo, nas pescas e em tudo o mais.

José Pedro Fernandes - Maia