“O 'open source' foi fundamental na criação do Esquerda.net”
11-Jul-2008
Gonçalo Castilho e Luís PaivaAtrás da equipa de redacção que todos os dias actualiza o Esquerda.net, há uma equipa técnica que vela pelo bom funcionamento do portal, sempre pronta a intervir. Fomos conversar com dois membros dessa equipa, Luis Paiva, director de plataforma, e Gonçalo Castilho, director gráfico.

“O software open source foi fundamental na criação do Esquerda.net”

Atrás da equipa de redacção que todos os dias actualiza o Esquerda.net, há uma equipa técnica que desenhou a arquitectura do portal, aplicou o projecto gráfico previamente definido, e que cuida da manutenção e da segurança, desenha os banners, vela pelo bom funcionamento do portal, sempre pronta a intervir em qualquer dia, em qualquer hora. Fomos conversar com dois membros dessa equipa, Luis Paiva, director de plataforma, e Gonçalo Castilho, director gráfico.

Entrevista de Luis Leiria

Mas o que é, afinal, um director de plataforma? Luís Paiva define desta maneira as suas funções: "Eu faço a ponte entre quem produz os conteúdos, o Bloco de Esquerda, e uma equipa que tem um programador, um animador multimédia e um responsável gráfico". É como uma 'cola' que une estas partes. "Não sei se isso existe na classificação nacional de profissões", brinca, observando que até prefere outro termo, o de responsável multimédia. "Um director de multimédia é um director de produção, mas que faz a ponte entre o cliente e a proposta gráfica".

A relação da equipa de Luis Paiva com o Bloco de Esquerda começou antes do Esquerda.net, com a criação do site da campanha presidencial de Francisco Louçã. Por pedido do cliente, a plataforma escolhida para o desenvolvimento foi de software livre. O resultado foi tão positivo, que nunca mais abandonaram esse tipo de software de código aberto. A plataforma escolhida foi a Mambo, que depois mudou de nome para Joomla. "Foi o nosso primeiro contacto com o CMS open source", lembra Luís Paiva. CMS, sigla de Content Management Systems, ou Sistema Gestor de Conteúdos é um agregador de conteúdos com um conjunto de funcionalidades que permite ter um backoffice amigável, que permite que os clientes sejam autónomos na integração dos conteúdos. "Com ele, havia autonomia de quem introduzia os conteúdos e libertava-nos dessas tarefas para desenvolvermos a plataforma".

Uma comunidade que se auto-ajuda

Uma das razões para a escolha do Joomla foi a existência de uma comunidade que é grande e se auto-ajuda. "Cada vez que temos um problema de desenvolvimento, colocamos a questão no Joomla.org ou na comunidade portuguesa de Joomla, e as respostas surgem naturalmente da própria comunidade." Além disso, o Joomla tem um front office cada vez mais próximo do que os designers gostariam de ter online, e um back office que os responsáveis pelos conteúdos gostam de usar, sem ter necessidade de conhecer qualquer software específico de multimédia, como há uns anos atrás era necessário, como o dreamweaver, ou outro editor de html. "O cliente é autónomo na integração de conteúdos." E é uma plataforma que sustenta a construção de grandes portais sem grandes investimentos económicos.

"O open source tem uma particularidade que acho muito importante", explica Luís Paiva. "Permite-te perceber, quando estás a mexer no código, o que se está a passar. Permite-te errar, permite reescrever o código, e permite contactar milhares de sujeitos que estão a desenvolver a plataforma: Assim, ela desenvolve-se a um ritmo completamente diferente dos CMS proprietários."

Balanço positivo

Dois anos passados, Luís Paiva faz um balanço positivo da experiência de montar um portal que funciona sete dias por semana, 24 horas por dia. "Há coisas que fizemos há dois anos que não faria agora. As secções de notícias poderiam ter tido uma outro sistema de classificação e de arrumação. E também a secção dos dossiers." O grande problema de introduzir grandes mudanças de estrutura é a dimensão que o portal ganhou, com milhares de itens já produzidos nestes dois anos, o que lhe dá um grande peso, devido à quantidade de informação armazenada, explica.

Mas muito já se mudou nestes dois anos. "Quando foi lançado, o Esquerda.net seguia o modelo clássico: uma coluna à esquerda, outra à direita e uma coluna central. Hoje olhas para o portal e não é nada disso. De certeza que daqui a um ano vamos olhar e não vai ser nada do que é hoje".

A dificuldade em trabalhar com o Bloco, diz Luís Paiva, é que ele é muito exigente em termos da quantidade de informação com que gere o seu dia-a-dia político. "Com outros clientes, nunca lidei com tanta massa de informação e nunca tive tanta necessidade de pensar como arrumá-la sem que ela deixe de ficar visível ao utilizador. E essa é e tem sido a principal dificuldade do portal."

Outras dificuldade tem a ver com os procedimentos e as capacidades relacionadas com segurança: "É o nosso grande investimento neste momento o estudo e a investigação da equipa nesta área."

Projectos ainda por desenvolver

Finalmente, as mudanças gráficas envolvem um grande esforço e muita atenção. "Houve projectos que ficaram por desenvolver e que temos de retomar - por exemplo, conseguir que o portal ao fim-de-semana tenha um aspecto diferente e orientado para um tipo de conteúdos diferentes. Isto implica mudar visualmente e mudar a estrutura de conteúdos por 24 horas, e desenvolver automatismos neste processo. É por aí que estamos neste momento a trabalhar", diz Luís Paiva, que, como utilizador do Esquerda, acha que o dossier é fundamental. "Acho que ele deve ter grande impacto no sábado e no domingo. E que o portal se devia adaptar graficamente e estruturalmente ao fim-de-semana, para acolher os utilizadores que quisessem consultar o dossier. A sensação que tenho é que alguns perdem uma informação que é pertinente."

O essencial é a fácil navegação

Para Gonçalo Castilho, responsável pelo grafismo do Esquerda.net, a questão essencial de desenhar um portal de informação é que seja de fácil navegação, que a informação seja de acesso fácil ao utilizador. "A regra é que deve bastar um clique para atingir aquilo que se quer. O que coloca o problema do volume de conteúdos na página de entrada - que tem de ter o que é essencial no portal."

Por outro lado, o Esquerda.net é um site de informação política, o que coloca o problema de haver uma estrutura modular, que permita variar aquilo que é visível imediatamente quando se entra no portal. "É por isso que temos colunas com elementos cuja ordem pode variar em função do que politicamente interessa mais ou menos, é mais actual ou menos actual, porque isto dita uma hierarquia de informação."

O outro desafio foi criar um projecto que permitisse que a redacção pudesse manter uma determinada estética sem que os seus membros sejam obrigados a ter formação gráfica. "Basta que saibam algumas coisas básicas - a dimensão da imagem, a sua proporção - para não destruírem, por assim dizer, o grafismo do portal", diz Gonçalo Castilho. "É claro que se houvesse um gráfico a acompanhar permanentemente, se houvesse mais preocupações gráficas nunca haveria títulos de três linhas... Mas, apesar disso, estas estruturas são efémeras, não têm a mesma escala de importância. E o objectivo principal continua lá - é acessível."

Grafismo mais limpo possível

O outro objectivo foi tornar o grafismo do portal o mais limpo possível. Houve também a escolha de um determinado tipo de fonte (letra) para o site, criada por um designer português, o Mário Feliciano. "É uma fonte bonita, a Morgan, usada no logotipo e nas cabeças das secções."

Será que o modelo do Esquerda ainda está actual? Que tendências deverá seguir de futuro?

"Há correntes que dizem que há um design web 2.0, mas isso para mim é uma treta", ironiza Gonçalo Castilho. "Já fiz sites gráficos, que parecem um CD-ROM, muito bonitos quando se vai lá uma vez. Mas se formos todos os dias durante um mês, aquilo acaba por ficar uma chatice. Ninguém lê um livro de arte todos os dias." Por isso, defende, em portais visitados muito frequentemente, a zona gráfica deve ser o mais "invisível" possível, para não se tornar saturante "O primordial não é a cabeça da opinião, ou de outra secção, é o título principal do portal. Tudo o que secundarizar isso, está errado." Para Gonçalo Castilho, a principal melhoria seria trazer para o site ilustradores, fotógrafos, artistas plásticos e conseguir incorporar o seu trabalho dentro do site.