Silêncios
08-Set-2008
Alice Brito À medida que Setembro nos foi chegando, um coro de vozes sociais-democratas fez-se ouvir, queixoso e alarmado, clamando contra o silêncio da sua líder, que acabaria finalmente por falar no meio dia de um domingo sem história, com um meio discurso igualmente sem história e sem eloquência.
Não se percebe muito bem esta aflição, esta estranheza magoada, face à estrada de mutismo percorrida por Manuela Ferreira Leite.

Os militantes do PSD já deviam estar habituados a esta serena superioridade dos seus chefes que fazem da mudez a norma e do diálogo a excepção.

Quem não se lembra dos tabus cavaquistas, desenhados e edificados a preceito, intocáveis e inacessíveis?

Quem se esqueceu já do enorme património de silêncios com que o mesmo Cavaco se apresentou às eleições presidenciais, silêncios peremptórios, ásperos como erva crestada, instrumentos preciosos para a dissimulação da impreparação, integrantes da alquimia dos poderes medíocres?

Há silêncios e silêncios.

Há silêncios prodigiosos, dignos, respeitáveis e respeitosos, que são feitos de afectos, utopias e solidariedades. São os silêncios que recusam traições, ou prestam homenagens sentidas e verticais, silêncios feitos de compaixão, de dádiva e de estima.

Não são esses os silêncios dos poderes.

Pelo silêncio se mantiveram e mantêm ditaduras intermináveis.

Pelo silêncio se protegem os perjúrios dos governos, cerzidos nas promessas fáceis e improváveis de campanhas populistas.

Pelo silêncio, mascarado de sapiência ou estratégia, se oculta o deserto da ideia ou o fastio ao pensamento.

Os silêncios de quem reside no poder são a exibição do menosprezo, da inconsideração, da invisibilidade das pessoas.

Há silêncios e silêncios.

Quando os poderes nos despejam em cima os linguajares indecifráveis feitos de saberes secretos sobre matérias supostamente inatingíveis, há silêncio.

Quando o poder político e o poder económico falam entre si, menorizando e excluindo o cidadão comum que lhes empresta a existência, há silêncio.

Quando se fazem negócios, negociatas, alienações, e com elas se constroem e perpetuam fortunas à custa do erário público, no atapetado dos gabinetes ministeriais, há silêncio.

Nada de novo, portanto, na ausência verbal da direcção social-democrata.

Reproduz apenas e tão só a impossibilidade de propor o que quer que seja, porque numa posição de concordância com aqueles a quem institucionalmente se deveria opor. Os poderes no poder foram bem mais longe do que a ministra do défice sonhou ir.

Nunca em Portugal se foi tão longe em matéria de corte nas despesas públicas. Nunca a precariedade rondou e entrou na vida das pessoas como agora, nem nunca as pessoas sentiram de forma tão violenta a sacralização do mercado, a abater-se feroz e inédita sobre o quotidiano dos que vivem do seu trabalho.

Este é um silêncio de aquiescência, venerador e agradecido.

Alice Brito