É o fim do capitalismo?
24-Set-2008
João RodriguesEsta pergunta circulou nos últimos dias na imprensa financeira respeitável. Assim colocada, a pergunta não tem grande sentido. Todos conhecemos a correlação das forças sociais e políticas. E todos sabemos que uma transição sistémica desejável deverá ser o resultado de um longo processo de acumulação de forças democráticas e de vitórias socialistas no campo das ideias e das políticas públicas.

A pergunta dá-nos apenas uma primeira medida do pânico e da desconfiança que se apoderaram da finança de mercado, enredada num processo que, como sempre, pouco cria e muito destrói. Hoje muitos dos complexos e sofisticados produtos financeiros criados pelos alquimistas da finança desregulada não têm preço. Ninguém sabe quanto valem.

No entanto, a desconfiança tem um preço claro: na semana passada, a taxa de juro dos títulos do tesouro norte-americanos de curto prazo tornou-se negativa, ou seja, os especuladores preferiram o prejuízo seguro dos activos do Estado às forças obscuras da incerteza dos mercados monetários.

Há, no entanto, uma pergunta mais modesta, mas realista, que talvez valha a pena colocar no meio da actual turbulência: será que isto é o fim de uma certa configuração do capitalismo? Uma configuração que se desenvolveu sob hegemonia da finança de mercado, que dura há trinta anos, atingindo o seu máximo desenvolvimento no mundo anglo-saxónico e gerando um padrão de desigualdades e de instabilidade sem precedentes desde 1929. A sucessão de acontecimentos dos últimos dias parece de facto anunciar o colapso de um modelo e de uma ideologia. Apenas sob o peso das suas contradições internas.

A ironia amarga de Barbara Ehrenreich, uma das melhores cronistas do sofrimento social dos trabalhadores pobres norte-americanos, tem um ano, mas vai ao âmago dos actuais problemas: "Por incrível que pareça, este pode ser o primeiro caso na história em que os explorados conseguem deitar abaixo um sistema económico injusto, sem passarem pela trabalheira de uma revolução" (Esquerda, 16/07/2008). A financeirização do capitalismo encontrou os seus limites no crédito dito subprime. Como sublinharam, em artigo recente, diversos economistas da ATTAC: "a consolidação de uma relação salarial injusta está associada ao frenesim financeiro e à incapacidade do capitalismo neoliberal em construir uma trajectória estável" (Le Monde, 19/09/2008).

A maior liberdade dos agentes financeiros, fruto de um prolongado processo de liberalização, traduziu-se numa efectiva diminuição da liberdade de muitos trabalhadores, hoje expostos às consequências socioeconómicas perversas que advêm da liberdade irrestrita de circulação do capital. A precariedade, a estagnação salarial e o sobreendividamento são parte desta configuração do capitalismo e explicam também muitas das suas fragilidades sistémicas.

Sob o pano de fundo de uma ampla fractura social, e na ausência de regulações mais robustas que controlassem o comportamento das instituições financeiras, as dinâmicas concorrenciais da «anarquia de mercado» como que «coagiram» os agentes financeiros a comportarem-se de forma crescentemente aventureirista na fase ascendente do ciclo. Os lucros potenciais da inovação financeira, feita de formas cada vez mais sofisticadas e opacas de endividamento, criaram as condições ideais para o actual colapso.

A finança trancou então as economias num ciclo vicioso descendente em que a evolução dos preços de diversos activos e o sobreendividamento, que tinham suportado a economia eufórica para as classes mais ricas, conduzem agora a perversas reacções em cadeia que operam numa única direcção: crescentes problemas de liquidez, ou seja, crescentes dificuldades em fazer face aos fluxos de pagamentos, levam a vendas forçadas e desesperadas de activos que acentuam a quebras dos seus preços, levando à desestruturação dos precários e opacos circuitos da finança de mercado, à contracção do crédito, que por sua vez gera quebras do investimento e dos rendimentos que alimentam todo o processo e o intensificam. Como sempre a liquidez, a necessidade de dispor de dinheiro, é a palavra de ordem. E o esforço descoordenado para a obter só agrava os problemas. Os problemas de liquidez transformam-se progressivamente em problemas de insolvência. O coração da finança de mercado foi assim atingido por uma onda potencial de falências que ameaça desestruturar todo o sistema financeiro.

A única razão que impediu até agora a catástrofe económica total nos EUA foi a pronta intervenção das autoridades com uma política monetária agressiva, maciças injecções de liquidez e o impensável: um vasto programa, sob a pressão das circunstâncias, de nacionalização de instituições financeiras consideradas charneira, de organização de fusões e de socialização das perdas financeiras privadas. O Financial Times reconhece que «as loucuras de uma geração de financeiros irresponsáveis terão de ser pagas pelos contribuintes» (Financial Times, 19/09/2008).

No entanto, o cálculo pode sair furado: as medidas de emergência, que se multiplicam nos EUA, podem dar origem a uma forte corrente de opinião a favor da reintrodução de mecanismos de controlo e de regras muito mais apertadas para as operações financeiras. Este processo, ao colocar entraves à livre circulação do capital financeiro, pode criar as condições para reverter o longo processo de intensificação da exploração do mundo do trabalho. Só quando isto acontecer é que o anúncio do colapso do neoliberalismo se tornará efectivo.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas