Preparemo-nos
13-Nov-2008
Aprovada a Lei do Trabalho, aprovado o Orçamento, há que dizer com clareza: preparemo-nos.
Nas ruas, 120 000 professores deram o mote dos próximos tempos: esperam-nos dias de intensa mobilização e endurecimento da luta popular. O novo Orçamento é claro: a factura da crise vai ser passada a todos nós, e nem as eleições que se avizinham vão pôr limites à ofensiva do neo-liberalismo, ou não teríamos a Lei do Trabalho que passamos a ter.
Opinião de José Pedro Fernandes.

Mas também é verdade que a mobilização em torno das últimas grandes manifestações não tinha precedentes há anos. Hoje voltou-se a discutir política no café, acabou a rotina do futebol-e-um-bagaço. E há finalmente uma juventude que chega sem ilusões e com renovada combatividade ao mercado de trabalho. Os movimentos de base surgem um pouco por todo o lado e um pouco por todas as causas. Os sindicatos enfrentam uma pressão cada vez maior por uma acção mais dura e consequente, para não serem completamente ultrapassados. E mesmo a consciência da necessidade de eficácia, em termos de organização, vai ganhando peso.

O que coloca a esquerda perante uma responsabilidade acrescida: a urgência de construir um programa de alternativa é premente. É necessário que seja dito já amanhã o que ainda é demasiado genérico ou pouco claro hoje. Ou seja: preparemo-nos.

Tenhamos claro que a direita não terá escrúpulos nem rebates de consciência para tentar impor os seus desígnios. Recorrerá a tudo, mesmo à força armada, se se sentir encurralada. Já lá vão uns anos, desde o buzinão da ponte sobre o Tejo, mas a memória não é curta: há sempre uns sicários de dedo nervoso no gatilho a quem recorrer. Por isso também: preparemo-nos.

Não se trata de ser idiota e pregar a Revolução de Outubro para o próximo fim de semana. Trata-se de enfrentar os próximos tempos com lucidez. Ganhar posições. Travar a ofensiva da direita e afirmar uma alternativa de esquerda. E sair desta crise numa posição mais favorável.

Preparemo-nos para isso: ninguém o fará por nós.

José Pedro Fernandes