O Despeito
30-Dez-2008
Natasha NunesO divórcio entre a Presidência da República e o Partido Socialista foi sentenciado no passado dia 29 quando Cavaco Silva fez uma declaração ao país para informá-lo que a lealdade entre as partes estava quebrada. Porém, não esqueçamos que o casamento, enquanto durou, foi feliz.

Houve uma escaramuça ou outra, como por exemplo o desacordo sobre a Lei da Paridade, mas regra geral, a coisa correu bem. O problema fundamental deste relacionamento veio revelar-se um assunto apolítico. Ou melhor, na verdade, um assunto intrinsecamente político: a questão da autoridade.

Não houve nenhuma discordância política de fundo entre Belém e São Bento durante estes últimos anos. A cooperação estratégica que protagonizaram teve tudo de natural, de espontâneo e de voluntário. Não poderia ter sido de outro modo. A harmonia de estados de alma e de esquemas mentais foi plena. A convergência firmou-se nos domínios estratégico, programático e empírico. O projecto neoliberal que Sócrates advogou para o país era concomitante com aquilo que foi o desígnio da modernização conservadora do cavaquismo e com aquilo que são as aspirações apatetadas do neocavaquismo de Ferreira Leite. Não houve nenhuma referência séria à intensa crise social que assola os portugueses durante as declarações que a Presidência da República foi fazendo nos últimos meses. Não houve nenhuma apreciação incisiva nem nenhuma crítica pungente de Cavaco Silva à governação do Executivo.

Na verdade, esta intervenção a propósito do Estatuto dos Açores teve muito pouco que ver com o Estatuto dos Açores. Não é relevante que o diploma tenha fragmentos inconstitucionais. Na eventualidade de o Tribunal Constitucional vir a concordar com Cavaco Silva nesse ponto, o máximo que a Presidência da República pode alcançar é um parcelar triunfo de secretaria e obrigar os partidos que aprovaram o documento no Parlamento a engolir um sapo monumental. Cavaco saiu politicamente derrotado. Não gostou. Levou a peito. A consonância relacional quedou-se assim mercê de um amuo entre namorados despoletado por uma birra de egos. Nada mais do que isso. Como se no país não houvessem tantos outros dramas, reais e profundos, por resolver.

Natasha Nunes

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